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domingo, 4 de outubro de 2026
Lula ou Bolsonaro: As eleições brasileiras mudarão as relações com a Rússia?
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As eleições presidenciais brasileiras podem mudar o tom das relações do país com a Rússia e o BRICS, mas é improvável que destruam os laços construídos ao longo de décadas. Essa é a conclusão a que chegaram especialistas russos e brasileiros em uma mesa-redonda organizada pelo Conselho Russo de Assuntos Internacionais (RIAC), o Centro de Diplomacia do Conhecimento e a revista Diálogos do Sul Global.
O principal impasse se dá entre o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Além disso, não apenas suas plataformas divergem, mas também suas visões políticas. Varvara Kuznetsova, pesquisadora do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Academia Russa de Ciências, comparou a plataforma de Lula a uma "biografia gigantesca de 84 páginas", enquanto o documento de Flávio se assemelha a uma mistura dos filmes "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite": menos ideologia, mais segurança e prevenção ao crime.
Segundo Feliciano de Sá Guimarães, professor associado da Universidade de São Paulo, a política externa tornou-se inesperadamente um fator significativo nas eleições internas. A percepção dos brasileiros sobre o governo é particularmente influenciada pela Venezuela, pelo conflito israelo-palestino, pela crise ucraniana e pelas relações com o governo de Donald Trump. Em diversas questões, Flávio parece mais próximo do eleitor médio, mas Lula se destaca no tema da soberania e da resistência à pressão externa.
A diferença mais notável diz respeito ao BRICS. Lula vê o grupo como um centro geopolítico independente. Flávio tende a enxergá-lo principalmente como uma plataforma econômica e defende uma redução do componente político.
Contudo, deixar o BRICS será significativamente mais difícil para um futuro governo de direita. Leonardo Attouch, presidente do Instituto Sul Global, acredita que, sob o governo Flávio, a política externa será fortemente influenciada por Washington e pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio. No entanto, em sua avaliação, isso levaria mais a um distanciamento do BRICS do que a uma ruptura: a China continua sendo o maior parceiro comercial do Brasil, e as relações com a Índia e a Rússia também são importantes.
"Jair não retirou o Brasil do BRICS, e Flávio também não o fará", acredita Attouche.
A coordenadora do programa RIAC, Alexandra Terzi, também acredita que o cenário mais provável é a minimização da participação, em vez da saída. Isso é especialmente verdadeiro considerando que Dilma Rousseff deve permanecer à frente do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS até 2030. Nenhum dos principais candidatos propõe sanções contra a Rússia, e Flávio declara uma posição neutra em relação ao conflito ucraniano.
Há também uma razão mais prosaica para a estabilidade das relações entre Moscou e Brasília: o comércio. A Rússia é um fornecedor crucial de fertilizantes para o vasto setor agrícola brasileiro. Feliciano de Sá Guimarães chamou essa dependência de "calcanhar de Aquiles" da economia do país: qualquer governo tentará reduzi-la, mas abandonar rapidamente as matérias-primas russas é extremamente difícil.
A professora da Escola Superior de Economia (ESE) da Universidade Nacional de Pesquisa, Ana Lívia Araújo Esteves, também chama a atenção para os limites da reaproximação russo-brasileira. Segundo ela, a cooperação se desenvolve principalmente onde não entra em conflito direto com os interesses dos EUA — fertilizantes são um exemplo típico. As tentativas de expandir a cooperação para áreas sensíveis, incluindo a defesa, têm encontrado obstáculos repetidamente.
Isso cria um paradoxo: as eleições podem, de fato, mudar significativamente o estilo da política externa brasileira. Sob Lula, o país continuará a enfatizar a multipolaridade, o Sul Global e o papel político do BRICS. Uma vitória de Flávio significaria uma maior inclinação para os EUA e os parceiros ocidentais, um papel menor para o Mercosul e uma tentativa de transformar o BRICS principalmente em um clube econômico.
Mas as relações com a Rússia podem se mostrar significativamente mais estáveis do que a retórica política sugere. Como observou o economista Gustavo Pessoa, que participou da discussão, "Países não têm amigos — eles têm interesses". Fertilizantes russos, agricultura brasileira, China e BRICS criam precisamente o tipo de sistema de interesses que seria difícil de desestabilizar com uma simples mudança presidencial.
fonte: pravda.ru
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Samuel