Postagem em destaque

Ucrânia: Lula se recusa a entregar munição para tanques.

NO BALUR I STA NA NO KUNCIMENTI, PA KILA, NO BALURIZA KUNCIMENTI!... O governo brasileiro se opôs ao pedido da Alemanha de entrega de mun...

terça-feira, 3 de setembro de 2013

GUINÉ-BISSAU: O QUARENTA, QUARENTA ANOS DEPOIS.

NO BALUR I STA NA NO KUNCIMENTI, PA KILA, NO BALURIZA KUNCIMENTI!...




"A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro."
John F. Kennedy


DISCURSO DE N`SALMA

No dia 23 de Agosto foi depositado no Supremo Tribunal deste país os estatutos e assinaturas necessárias a legalização de uma nova força politica. Um jornalista depois de ter feito a contagem dos Partidos Políticos nacionais, anunciou ao mundo que era a quadragésima que vinha a luz do dia neste país, depois de quarenta anos.

Isso me fez pensar em algumas coincidências que nos vinham ao espirito há já algum tempo. Mas hoje entendi que o que parecia apenas coincidências era algo maior e mais profundo. Ser o quadragésimo Partido Politico a ser criado nesta terra precisamente quarenta anos depois da Independência, era um sinal claro de que não era apenas mera coincidência, mas um sinal claro de que as pessoas ainda não conformaram com o estado do seu país, embora depois de tantos anos de desesperança e descalabro. Que ainda sonham, que vão buscar forças, insuspeitadas, dentro delas para tentar mudar este país. Principalmente os jovens.

Mas as “coincidências” (nada acontece por acaso?), ou os sinais que a Providência envia-nos, não se ficaram por aqui: quando semanas antes, por vontade de um simpatizante, obtivemos uma sede em N`Salma, não pôde deixar de lembrar-me do famoso discurso de Amílcar Cabral em que ele desvendava um pouco a sua ideia quanto ao período que se seguiria depois da Independência. Esse discurso ficou conhecido como o “discurso de N`Salma”.

Do tal “discurso” - ou “espírito” de N`salmah” (como o chamei em um texto que se encontra no grupo “Terceira Via” da Facebook) - Cabral preconizava a entrega do poder, depois da Luta, aos “mais esclarecidos e competentes filhos do nosso povo”.

Talvez já intuindo a sua morte breve, Cabral, disse nesse dia o seguinte: “(…) A Luta que levamos a cabo com a arma na mão para tirar os tugas do nosso chão, para a nossa Independência, é o programa mínimo que estamos a cumprir. Não pensem que vamos todos mandar em Bissau. Para aquele que era mecânico, electricista, pescador, agricultor quando entrou na Luta, irão ser criadas condições para ele continuar a sua actividade e viver o seu estatuto de combatente da liberdade da pátria. A nossa Independência termina em Ensalmá. Ela vai ser entregue à gente que virá ao nosso encontro para a assumir. Essa gente é que irá começar a cumprir o Programa Maior que é compor a terra, tarefa maior e mais complicada. (…)”

Conhecia as capacidades dos seus homens. Tinha-os mobilizado preparado e incorporado na Luta; tinha plena consciência das suas capacidades pessoais, ideias e espirito que os norteava ou norteou quando resolveram aderir a Luta. Sabia portanto que nunca poderiam cumprir o Programa Maior, mesmo com ele vivo, ao lado deles; e pior com ele morto; muito pior com ele morto por eles.

No texto referido em cima, disse que esse discurso “era uma heresia, uma traição” para uma certa “classe” de indivíduos que estavam na Luta. Pois na verdade, os “termos de referência” dessas pessoas não lhes permitiria serem os que encabeçariam o país depois da Independência, embora tenham lutado pela mesma. Seria isso um paradoxo? Não; era simplesmente da natureza das coisas. “(…) Aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro." Era simples, dentro dos moldes de bom senso, da normalidade, em qualquer sociedade e em qualquer país do mundo. Por isso já disse que a única revolução que necessitamos neste país é a “Revolução da Normalidade”. Pois no dia que voltarmos a normalidade tudo será diferente e melhor, como com todos os povos do mundo.

II

A PROVIDÊNCIA ESTÁ DO NOSSO LADO

No discurso que fiz diante do Supremo Tribunal, depois da entrega dos estatutos do nosso Movimento politico, não podia deixar de frisar a simbologia do facto de o Programa Mínimo de Cabral ter terminado nesse sítio, em N`salma, como Amílcar Cabral disse: “(…) A nossa Independência termina em Ensalmá. Ela vai ser entregue à gente que virá ao nosso encontro para a assumir. Essa gente é que irá começar a cumprir o Programa Maior que é compor a terra, tarefa maior e mais complicada. (…)”

Nos resolvemos ir ao encontro de Cabral, quarenta anos depois, para assumir o seu legado, o seu ceptro, e ser “essa gente é que irá começar a cumprir o Programa Maior (…)”, como ele sonhava a tantos anos. Sim, o nosso propósito é realizar o seu Programa Maior, a “tarefa maior e mais complicada”. É isto que nos move e nos fez levantar quarenta anos depois. É este o nosso espirito; o verdadeiro espirito de N`salma. È isto que nos move na criação deste novo Movimento politica. Mas quem somos nós?

Somos apenas aquele grupo de cidadãos que durante semanas de duras discussões, por fim gerou este partido? Não, seguramente não. Somos a ponta do iceberg que sempre é menor do que a imensa massa submersa. Na verdade somos o sentimento, de milhares de cidadãos, feito Partido. Movimento patriótico é o Partido esperado de um movimento grandioso de milhares que querem uma nova oportunidade para a sua pátria. Somos a parte visível de um acreditar e de uma revolta que esta latente no coração de milhares de nossos compatriotas. De milhares de jovens que sabem que chegou a hora de agir. Que não querem mais viver na podridão como os seus pais. Somos mais do que a arma da teoria, somos a teoria, a ideologia, o sentir, a revolta e a dor de todo um povo, metamorfoseado em um movimento, no qual aguardamos impacientemente a vossa chegada, numa união de vontades para um futuro grandioso caminhar. Pois sabemos que de nada valem as ideias sem homens que possam pô-las em prática. Por isso, este texto é para os que entendem a necessidade de um Movimento que preconizamos e dela querem fazer parte. No nosso contexto ele precisa de ser grande e poderoso, precisa de todos vos. Só nesta compreensão, conjuntamente com todos vós, ser o início do renascimento. Só assim seremos, todos juntos, o embrião de algo grandioso.

Nós, membros do nosso movimento, tratamo-nos pelo vocábulo “patriota” e não por “camarada”, “amigo”, “companheiro” ou “irmão”; nada que esteja contido nos significados dessas palavras define o nosso propósito. Uma pátria, tão destruída como a nossa, só pode ser construída por genuínos patriotas. Queremos que todos os patriotas entendam um dia que devem unir-se a nós. Que entendam que para criar um Movimento Politico Nacional, fazer uma Revolução nos costumes e hábitos, instruir uma Nação e finalmente construir um Estado forte e coeso, com uma governação mais do que competente, não basta querer. É preciso uma grande massa crítica, indivíduos brilhantes, dotados de uma inteligência e visão superior. Mas isso só será feito por homens sem medo. E independentemente do medo pessoal de sofrerem fisicamente, não tenham medo também de nada que é novo. Sejam novas ideias, novos caminhos, novos movimentos e novas acções. Serem como Kennedy que dizia: "A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro."

A Providência estava do nosso lado quando em 1 de Junho aprovamos os estatutos deste movimento na faculdade de Direito de Bissau, quando nos foi oferecida a sede em N`salma. Mas também estava do nosso lado quando humildes patriotas, cidadãos tão pobres como nós, nos ofereciam sedes em Jaal, em Safim e outras localidades. Quando cidadão anónimos, mesmo que pobres, mas imbuídos numa poderosa fé no triunfo do nosso Movimento, oferecem o pouco que têm, isso só pode dever-se a providência, que nos diz que se pode fazer politica mesmo sem se ser rico. Mesmo sem roubar o dinheiro do povo para isso. Pois não há maior contra-senso e injustiça do que roubar a um povo, para com esse dinheiro, manieta-lo de novo, com enganos, engodos, falsas promessas. A Providência está do nosso lado, mesmo que pela simples razão de que nunca poderia estar ao lado desses.

A Providência estava connosco quando nos foi permitido compreender a necessidade de um recomeço, quarenta anos depois, como se a Independência fosse hoje, A Providência esta do nosso lado quando entendemos que só com a junção a nós de todos os outros trinta e nove Partidos, movimentos, associações podemos criara a verdadeira mudança que é urgente e deve ser agora e não daqui há quatro anos. Não há um dia a perder, a pátria esperou demasiado, o povo foi já demasiadamente destruído. A Providência com a sua clarividência, bondade e paciência, aponta-nos o caminho certo, embora há muito que sabemos que não há outro.

Quem somos nós para desafiar a Providência?

III

TERCEIRA VIA: MOVIMENTO OU PARTIDO?

Porquê um Movimento e não simplesmente um Partido? Um movimento tem objectivos concretos e temporais e quando cumpre esses objectivos deixar de ter razões para existir não se pode perpetuar no tempo apenas para satisfazer as clientelas.

Um Movimento e não um partido político apenas; porque um Partido não se renova só pelo facto de ter novos militantes ou dirigentes. Um partido não é uma sede e militantes mais ou menos aguerridos à espera de recompensas materiais e postos no aparelho do Estado. É necessário acabar urgentemente com a retrógrada e criminosa mentalidade de que só podemos ser alguém na vida, só podemos realmente alcançar algo material (geralmente sem nenhuma capacidade para tal) se formos militantes de algum partido e levar a vida esperando que ela atinja o poder; ou estando ela no poder esperar que alguém na sua direcção política se lembre de nós e nos nomeie para qualquer posto.

Um Movimento se tiver que durar 10 anos será, se tiver que durar 20 também, mas quando desempenhar o seu papel histórico e deve sair da cena política. E isto independentemente da definição clássica da diferença entre um Movimento de Libertação e um Partido (casos do MPLA, FRELIMO e PAIGC durante as respectivas Lutas de Libertação. PAIGC era Movimento de Libertação, a FRELIMO como o nome indica, era uma frente de Patriotas lutando para a Independência. MPLA que agora é o “Partido do Trabalho” (sem nunca conseguir livrar-se do seu antigo e histórico nome de “Movimento” embora seja hoje “de facto” um Partido, com uma ideologia bem vincada e que sabe o que quer, estejamos de acordo ou não) foi o único que na altura tinha o nome “correcto” ou que definia a sua essência.

Este aparte é necessário para que se entenda que não estaríamos a formar mais uma força política apenas porque todas as razões apontadas por nós para isso sejam validas. Só isso não chega, há outras razões que se prendem com a estratégia, a situação política actual, a quantidade dos partidos, o nível de desenvolvimento sociológico e político da população, entre dezenas de outros factores e considerandos que devem ser analisados antes de se partir para este importante passo. Pois se “A ideia precede a acção como o raio precede o trovão”, as nossas ideias motivarão acções que por sua vez motivarão outras, que colidirão com terceiras e por ai fora, numa dinâmica que muitas vezes já não conhece (nem reconhece) os seus primórdios e paternidades.

 A responsabilidade de formar uma força politica séria é muito maior que a maioria das pessoas pensa. Por isso são formados tantos de ânimo leve. Devemos saber que uma força política pode mudar radicalmente a vida de centenas de seus militantes de um dia para outro. Pessoas podem morrer por pertencerem a um movimento político neste país. Por isso no dia da aprovação dos nossos estatutos na faculdade de Direito de Bissau, era o único que não tinha um semblante sorridente. O peso desse acto, da responsabilidade assumida era enorme. Mas sabendo também que com uma força política capaz, séria e combativa, poderemos mudar a existência do ser humano Guineense de uma vez por todas, não podia deixar de alegrar-me intimamente.

A alegria de ver esses jovens tentando mudar os seus destinos e não aceitar como os seus pais que devem ser conduzidos como carneiros por aqueles que não estão preparados para conduzir a nação nestes próximos quarenta anos. A tristeza de saber que terão que sofrer bastante, penar e perder muitas coisas já dadas como adquiridas para atingirem os seus fins.

Esta dualidade nos meus sentimentos, a alegria e tristeza, desse dia, ainda hoje me ensombram e me fazem recuar no tempo, para lembrar que antes de Cabral fundar o PAIGC já havia na Guiné e fora do território uma dezena de partidos e Movimentos que a história regista. Mas creio que havia muitos mais (que a História não registou, por insignificantes e provavelmente acabaram por cair no esquecimento) e mesmo assim criou o seu Movimento. O PAIGC sempre foi um Movimento (de Libertação primeiro e depois no poder) e não um Partido; e assim permanece até hoje (hoje mais do que nunca), por mais que o nome diga “Partido”.

Um Partido (que se preze e que se quer sério e competente) é uma determinada ideia, uma filosofia concreta, em suma, uma ideologia inabalável num tempo certo, com chefes certos. Pois uma mera substituição de dirigentes nunca será suficiente para desencadear o élan vital, o entusiasmo e o acreditar para a realização de objectivos transcendentais que nos esperam. Só assim podemos realizar o nosso destino como cidadãos, como indivíduos e finalmente como povo. Não há grandes realizações, não há “desenvolvimento”, não há o “sorriso da criança” sem o amor profundo ao Povo, sem querer desesperadamente a sua redenção. É somente no amor ao Povo que o ser humano se realiza e se torna o herdeiro da sua terra; se torna “naquele por quem se espera” e não “naquele que espera”.

No nosso comunicado de imprensa por altura da entrega dos documentos no Supremo Tribunal fomos claros no entendimento que queremos ser a Terceira Via politica, entre os dois grandes partidos nacionais. Uma revindicação antiga, consubstanciada no texto “OS FUNDAMENTOS TEÓRICOS PARA A CRIAÇÃO DO MOVIMENTO NACIONAL GUINEENSE” (publicado neste semanário ano passado, e de onde vamos extrair partes deste texto). Ser a alternativa há muito ansiada entre estes dois grandes blocos que formão este “centrão” cinzento, amorfo, destituídos de ideias, forças e ideologia clara para um novo recomeço.

Mas só isso seria pouco, pois mais que uma revindicação é uma certeza baseada no entendimento que uma Terceira Via não pode ser unicamente política, pois perderia todo o seu sentido. Entendemos a Terceira Via como algo maior que apenas um Partido Politica. Ansiamos por um renascer cultural, económico e social. Preanunciamos um renascer literário, musical, teatral, académico, tudo o que os homens cultivam e vivem em sociedades normais. Ansiamos fazer deste povo um povo culto, rico, sadio, bem vestido, com hospitais, escolas, parques, propriedades agrícolas, cinemas, bibliotecas, centros culturais, ruas, passeios, praças e mercados. Mas tudo isso em liberdade sem medo das suas forças armadas e o seu próprio Governo. Em liberdade para exercer o seu culto, a sua religião e seus costumes. Criar tudo que seja bom e necessário para que o ser humano seja finalmente ser humano neste país. Criar tudo que foi negado a este povo durante tantos anos e que todos os outros povos do mundo usufruem. É isso que queremos para o nosso país e povo e mais do que isso, sabemos que somos capazes disso, sem nenhuma dúvida. Mas, mais que uma certeza é uma constatação baseada no entendimento que uma Terceira Via não pode ser unicamente política, pois perderia todo o seu sentido. Entendemos a Terceira Via como algo maior que apenas politica. Ansiamos por um renascer cultural, económico e social. Preanunciamos um renascer literário, musical, teatral, académico, tudo o que os homens cultivam e vivem em sociedades normais. Só assim seremos parte do futuro Guineense.

Por isso este Movimento Patriótico deve ser social e cultural a vez, possuidora de forças capazes de gerar uma nova mentalidade, numa nova maneira de fazer “politica”, para por fim a “politica” servir o Povo, e não como até agora, servir o militante.

Mas isso só é possível quando o povo não for para nós uma coisa abstracta e longínqua. É nesta compreensão profunda, que disse várias vezes, que temos que amar o nosso Povo mais do que tudo neste mundo; e a nossa Pátria, criada por ele, acima de tudo neste mundo. E é essa compreensão que nos faz entender que a TERCEIRA VIA POLITICA é a única via que sobrou para este povo. Aliás, entendemos, numa certa acepção, que o povo em si é a própria TERCEIRA VIA, que é simplesmente a via do Povo. Por isso viemos para ficar, para realizar os objectivos sagrados, para redimir este povo e faze-lo triunfar finalmente.

Fernando Teixeira

Bissau, 1 de Setembro de 2013, o ano da criação do Movimento Patriótico


Total de visualizações de página