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segunda-feira, 29 de março de 2021

Cabo Verde: PAICV quer voltar ao poder em abril

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A presidente do PAICV, Janira Hopffer Almada, afirma que o objetivo é voltar ao poder em Cabo Verde nas legislativas, prometendo cortar gastos supérfluos e defendendo um compromisso nacional com todos os partidos.

"Para nós, um bom resultado é, primeiramente, aumentar o número de votos, em segundo lugar aumentar a nossa representação parlamentar, ou seja, o número de deputados na Assembleia Nacional", diz Janira Hopffer Almada, em entrevista à agência de notícias Lusa.  

Afastado do poder em 2016, após três legislaturas consecutivas a governar, a dirigente vai mais longe e assegura que fazer regressar o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) ao Executivo é o objetivo nas eleições de 18 de abril.

"O PAICV tem uma meta clara, que é ganhar as eleições legislativas de 2021, ter a maioria para formar Governo e implementar o projeto Cabo Verde para todos", afirma.

Questionada pela Lusa sobre a possibilidade de chegar ao Governo através de uma coligação pós-eleitoral, Janira Hopffer Almada assegura apenas que o PAICV vai "trabalhar com o foco" nas metas definidas. "Insisto, vamos trabalhar para merecer a vontade maioritária dos cabo-verdianos, com humildade, mas com muita convicção e determinação, sobretudo colocando os interesses de Cabo Verde em primeiro lugar", diz.

Janira Hopffer Almada

Janira Hoppfer Almada, presidente do PAICV.

Acabar com os "desperdícios" do Estado

Licenciada em direito pela Universidade de Coimbra, Janira Hopffer Almada, 42 anos, ascendeu à liderança do PAICV em 2014, e foi ministra da Juventude, Emprego e Desenvolvimento dos Recursos Humanos de Cabo Verde no último Governo do partido.

A concorrer pela segunda vez a primeira-ministra, num país profundamente bipolarizado entre Movimento para a Democracia (MpD) e PAICV, garante que a primeira decisão, caso seja eleita, será "cortar nos desperdícios e nos gastos supérfluos do Estado".

"Nós temos de ter a noção do país que somos, mas sobretudo da necessidade que temos de priorizar. Para mim há áreas fundamentais que estão sem os recursos necessários e suficientes, enquanto temos desperdícios lá onde, no nosso ponto de vista, não há necessidade", explica.

A dirigente critica alegados gastos atuais do Estado com viagens e deslocações, publicidade, parque automóvel do Estado ou em honorários "com recursos dos cabo-verdianos que se debatem com sérias dificuldades neste momento".

"Há um conjunto de desperdícios e de gastos supérfluos que nós já identificámos ao longo destes cinco anos com esta governação que nós não estamos dispostos a manter, até por uma questão de respeito pela situação do país", acrescenta.

Relançar economia após Covid-19

Sobre prioridades, com o país profundamente afetado pelas consequências económicas da pandemia de Covid-19, com o turismo, que garante 25% do Produto Interno Bruto, praticamente parado há um ano, assume que a primeira passa pelo "relançamento da economia cabo-verdiana".

O objetivo é "uma perspetiva de crescimento económico inclusivo para gerar mais empregos dignos, sobretudo considerando a juventude capacitada da nossa população", aponta.

A redução das "desigualdades sociais" e das "assimetrias regionais", respeitando a "igualdade social" e considerando sempre a "natureza arquipelágica" de Cabo Verde é a segunda prioridade. 

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Cabo Verde: Início da vacinação contra Covid-19 é "sinal de esperança"

"Em terceiro lugar, a prioridade seria encetar um profundo e leal diálogo, com todos, com a sociedade civil, com os demais partidos políticos, na perspetiva de podemos estabelecer compromissos sobre as grandes prioridades nacionais para o desenvolvimento de Cabo Verde. E aqui eu incluo fundamentalmente e primeiramente as áreas, da educação, justiça, segurança e política externa", aponta.

Admite que Cabo Verde tem hoje "muitas famílias a passarem por sérias dificuldades", devido à pandemia, com a taxa de desemprego a duplicar em 2020, para cerca de 20% e a pobreza a crescer, por falta de rendimentos. "É um momento difícil, muitos perderam o emprego, outras tantas famílias debatem-se com problemas de rendimentos, há um agravar da pobreza, temos novos pobres, infelizmente, em Cabo Verde, portanto, todos nós, que somos comprometidos com o nosso país, temos de ter a noção dessa realidade, que nos entristece a todos", aponta ainda.

Falhas na gestão da pandemia

Contudo, também reconhece que durante esta pandemia os profissionais de saúde e o sistema nacional de saúde de Cabo Verde foram "uma fortaleza", desde logo em resultado da "visão e das políticas" de "todos os Governos de Cabo Verde desde a independência nacional". 

Ainda sobre a pandemia de Covid-19, afirma que algumas medidas de apoio implementadas pelo Governo, aprovadas pela Assembleia Nacional também com o voto favorável do PAICV, apresentaram "falhas de eficácia e na implementação".

"Muitas delas não foram implementadas no tempo em que teriam utilidade, outras tantas não chegaram aos devidos destinatários, e tudo isso acabou por ter impactos negativos na gestão da própria pandemia por parte do Governo de Cabo Verde", critica.

As eleições legislativas em Cabo Verde elegem a Assembleia Nacional, composta por 72 deputados eleitos por sufrágio universal, direto, através de círculos eleitorais, em cada ilha e na diáspora. 

O país está cerca de 30 anos profundamente bipartidarizado, entre MpD, que tem atualmente uma maioria absoluta de 40 deputados, e o PAICV, que soma 29, além dos três eleitos da União Caboverdiana Independente e Democrática (UCID).

fonte: DW África

"Se eu merecer a confiança dos cabo-verdianos, maioritariamente, farei de tudo o que estiver ao meu alcance, usando todas as minhas forças e tudo o que eu puder dar em termos de trabalho, de entrega, de empenho, com seriedade e honestidade, acrescida à responsabilidade, para implementar um Cabo Verde para todos", remata.



terça-feira, 23 de março de 2021

ANGOLA: Quem é João Lourenço para não ser citado?

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O Presidente da República e do MPLA, João Lourenço não deveria perder tempo escondendo a sua incompetência, que já está mais do que escancarada, justamente, com a tentativa de deturpação do sentido da aplicação do respeito e assassinato do direito de opinião, quando merece e deve ser.

Por Fernando Vumby (*)

As pessoas ao manifestarem as suas ideias e opiniões merecem respeito ao invés de intimidação, ameaças de quase tudo e mais alguma coisa, numa constante em Angola. No caso do conceituado jornalista Mariano Brás eu não vejo crime nenhum de calúnia nem de difamação e, quem é sensato, não pode deixar passar em branco, o somatório da gestão assassina, brutal e ainda corrupta de um João Lourenço, que nem teve tempo para dar uma palavra de conforto às famílias enlutadas vítimas dos massacres de Cafunfo e não só, perpetrado por uma polícia nacional ao seu serviço.

Se tivesse mesmo hoje que escolher a pior figura do ano passado juntando toda porcaria feita, incluindo o massacre mais recente: Cafunfo, as prisões arbitrárias e a cumplicidade do seu silêncio, seguramente estaria no pedestal.

E se dúvidas houver, desafio-lhe a fazer um inquérito para ver se grande parcela da população, estaria ou não, do lado da opinião do jornalista Mariano Brás, que no fundo, só exteriorizou aquela que é a opinião generalizada da maioria dos angolanos. Repito: façam um inquérito se não vão constatar isto mesmo que ele escreveu e, justamente?

Mas uma pergunta se impõe, quem é João Lourenço afinal, para não puder ser citado quando os factos são evidentes e confirmam que o país é sim governado por criminosos. Diante do caos, social, político e económico, onde está a calúnia e a difamação?

O que João Lourenço deveria fazer em vez de tentar intimidar os jornalistas que não lhe lambem, os pés, junto de um sistema judicial que todos os angolanos sabem, ser um instrumento ao seu serviço e do famigerado partido repleto de corruptos, era fazer a sua declaração de bens e provar a nação angolana de que tudo que conseguiu foi de forma limpa. Quem sabe, assim, ainda conquistaria a credibilidade que tem estado a perder a cada dia que passa?

(*) Fórum Livre Opinião & Justiça

Angola: Cão abandonado em Valongo

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No dia 29 de Setembro (de 2020) encontrei um cão esquelético (só tinha pele e ossos), faminto, a vaguear numa rua de Koudougou no Burkina Faso. Na verdade encontrei-o na Rua Almada Negreiros, na cidade de Valongo, distrito do Porto (Portugal). Afinal, também nas terras lusas, até para ser cão é preciso ter sorte. Não foi o caso. A civilidade humana e, já agora, os direitos dos animais não fazem parte das prioridades dos detentores do poder autárquico em Valongo.

Por Orlando Castro

Eis o que se passou. No dia 29 de Setembro à tarde socorri um cão (faminto e esquelético) que vagueava pela rua Almeida Negreiros em Valongo. Peguei nele e dirigi-me ao Centro Veterinário Municipal de Valongo para lá deixar o indefeso animal.

Fui então informado (na rua, junto ao portão do Centro), depois de verificarem que o animal não tinha chip, que eu acabara de cometer um crime (provavelmente de lesa civilidade) ao violar o ordenamento jurídico português (quiçá a própria Constituição portuguesa) que me impede de socorrer um animal. Deveria, isso sim, chamar as autoridades para tratarem de ajudar o animal.

Perante a situação, arriscando a ser condenado (presumo) a uma pena de prisão máxima, identifiquei-me e disse ao funcionário que me atendeu que iria deixar o cão à porta (portão, mais exactamente) do Centro Veterinário Municipal de Valongo. E assim fiz.

No dia seguinte, à tarde, dirigi-me novamente ao Centro Veterinário Municipal de Valongo para tentar, de viva voz, explicar aos responsáveis o que se tinha passado na véspera e saber como estava o cão.

Foi então que encontrei o animal a vaguear nas ruas adjacentes ao Centro Veterinário Municipal de Valongo. Por telefone foi-me dito que teria de expor o assunto por e-mail, orando a Deus que o animal não fosse, entretanto e convenientemente, atropelado.

Mesmo considerando o “crime” que supostamente terei cometido ao socorrer um animal abandonado, faminto e esquelético, expliquei tudo isto – por escrito, conforme solicitado – às autoridades municipais, nomeadamente ao médico veterinário municipal (Fernando Rodrigues) e ao Presidente da Câmara Municipal de Valongo, José Manuel Ribeiro.

Os dias, as semanas, os meses, foram passando e destas entidades municipais nenhuma resposta chegava. Alarguei a divulgação do sucedido aos vereadores da Câmara Municipal, a associações de protecção animal, às juntas de freguesia do Concelho de Valongo, aos partidos, Ordem dos Médicos Veterinários, aos órgãos de comunicação social da região e a outras autoridades, caso da Polícia de Segurança Pública e Procuradoria-Geral da República.

Foi então que, 14 dias depois do sucedido, o médico veterinário responsável pelo Centro Veterinário Municipal de Valongo, Fernando Rodrigues, teve a gentileza de fazer o favor de responder, dizendo:

«Acusamos a receção da exposição de V. Exa. pelo que informamos que nos termos do DL 315/2003, compete apenas às Autarquias a recolha de animais na via pública por forma a garantir que os mesmos são errantes e estão dentro da circunscrição do município.»

Como se constata, é uma resposta que em nada responde às minhas denúncias, ou acusações, e marimba-se para o que era de facto (mesmo que não de jure) o cerne da questão: o estado de saúde do animal.

Não deixando os seus créditos por mãos alheias, o Presidente da Câmara Municipal de Valongo, José Manuel Ribeiro, respondeu-me dizendo:

«Agradecemos o contacto de V. Exa. e, verificamos que o médico veterinário municipal de Valongo, Dr. Fernando Rodrigues, já remeteu a V. Exa. uma resposta sobre o assunto, no qual informou que deverá ser contactada a Autarquia em caso de se verificar a existência de animais errantes, para que possa ser efetuada a recolha do(s) animal(is) , nos termos do Decreto-Lei nº 315/2003.»

Provavelmente por escrevermos num tipo de português que não é entendível em Portugal, as respostas dos dois principais responsáveis por este assunto indicam-nos onde fica o fundo do corredor quando a pergunta é: quem é corredor de fundo.

Entretanto, por informação da Direcção do Serviço de Protecção da Natureza e Ambiente da Guarda Nacional Republicana (Proc. LSOS n.º 3609/2020 de 01/10/2020) o caso foi remetido para a PSP (Polícia de Segurança Pública) “tendo em conta que a situação descrita tem lugar na área de responsabilidade dessa Polícia de Segurança Pública.”

Por sua vez o Ministério Público remeteu o assunto para o “Diretor do Departamento de Investigação e Ação Penal do Porto” (DA n.º 15488/20 – Animal abandonado – Email de 03-10-2020 – DA nº. 15488/20 – Entrada nº. 32053-20).

Como nota provisoriamente final, informo que até saber o que de facto se passou com este cão (que, provavelmente, por criminosa incúria humana já terá morrido), publicarei regularmente aqui este mesmo texto. Esta é a sexta publicação. A primeira foi a 22 de Outubro, a segunda em 22 de Novembro, a terceira a 20 de Dezembro de 2020, a quarta em 21 de Janeiro de 2021 e a quinta a 21 de Fevereiro de 2021.

fonte: folha8

Caso "Manuel Rabelais e Grecima" entra na fase final na quarta-feira.

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                                                                  Manuel Rabelais, deputado angolano

Ministério Público pediu pena de até 14 anos de prisão a deputado e antigo colaborador

O julgamento do processo-crime que envolve o deputado Manuel Rabelais, antigo director do extinto Gabinete de Revitalização da Comunicação Institucional e Marketing da Administração (GRECIMA), entra na quarta-feira, 24, na sua fase final com a apresentação e resposta aos quesitos sobre o que ficou ou não provado durante a fase de produção de provas.

Manuel Rabelais e o seu antigo assessor, Hilário Alemão Santos, estão a ser julgados pelo Tribunal Supremo sob a acusação de peculato, sob forma continuada, e de branqueamento de capitais na gestão do GRECIMA, que terá resultado num desfalqueao equivalente a mais de 117 milmilhões de dólares.

Aquando da sessão dedicada às alegações finais, a 13 de Março, o Ministério Público (MP) pediu a condenação dos réus a uma pena de cinco a 14 anos de prisão, alegando não ter dúvida de que Rabelais e Santos desviaram, para benefício próprio dinheiro de uma instituição do Estado.

O analista Ilídio Manuel admite que os réus venham a ser condenados, com atenuantes, "podendo continuar em liberdade, em função de um esperado recurso a ser interposto pela defesa".

Para o deputado da UNITA Sediangani Mbimbi, o julgamento de Manuel Rabelais “é mais um teatro político”.

"Casa de câmbio", diz o MP

Manuel Rabelais teria usado os seus poderes no GRECIMA para adquirir junto do Banco Nacional de Angola (BNA) divisas que eram canalizadas para alguns bancos comerciais onde o GRECIMA tinha contas e cujo único signatário era o também ex-secretário para a Comunicação e Imprensa do Presidente José Eduardo dos Santos.

Segundo a acusação, a gestão de Manuel Rabelais terá arregimentado pessoas colectivas e singulares para fazerem depósitos em kwanzas nas contas da instituição nos bancos comerciais para beneficiarem de divisas (dólares e euros), transformando o GRECIMA numa "casa de câmbio”.

Do lado da defesa, Amaral Gourgel disse que a acusação está eivada de argumentos "subjectivos e enfermos de enormes contradições”, lembrou que as transações foram feitas no circuito bancário, portanto não houve nenhuma “casa de câmbio”, e reiterou que “não houve cometimento de crimes” no GRECIMA.

Na sua intervenção, o advogado de Hilário Gaspar Santos também negou as acusações imputadas e pediu a absolvição dele porque “nenhuma das acusações atribuídas a este ficou provada”.

Belchior Catongo sublinhou, por exemplo, que “não há registo nos autos de que Hilário Gaspar Santos seja funcionário público” e que era apenas um mensageiro.

Espera-se que no final da sessão de amanhã o juiz venha a anunciar a data da leitura da sentença.


fonte: VOA

Pandemia aumentou violência contra meninas e jovens na Guiné-Bissau

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A pandemia do novo coronavírus provocou na Guiné-Bissau um crescimento dos casos de violência contra meninas e jovens mulheres, com o aumento dos casamentos forçados e de mutilação genital feminina no último ano.

"A pandemia teve impactos vários nas nossas vidas, sobretudo em relação a meninas e jovens mulheres, não só nos casos de mutilação genital feminina, mas também nos casamentos forçados e violência contra mulheres", afirmou Fatumata Djau Baldé, do Comité Nacional para o Abandono das Práticas Tradicionais Nefastas à Saúde da Mulher e da Criança da Guiné-Bissau.

A mesma opinião é partilhada por Laudolino Medina, da Associação Amigos da Criança, e com uma vasta experiência de apoio a meninas que fogem ao casamento forçado. "Com a Covid-19, as famílias que vivem do quotidiano viram os seus rendimentos cair e as estratégias mudam, nomeadamente através do casamento forçado com um elevado dote", afirmou Laudolino Medina. "O que é igual a vender crianças e a torná-las num objeto comercial", salientou.

Os primeiros casos de covid-19 na Guiné-Bissau foram confirmados a 25 de março de 2020. Desde então, o país, com cerca de dois milhões de habitantes, regista mais de 3.500 casos acumulados e 55 vítimas mortais. Há um ano, as autoridades guineenses declararam o estado de emergência, que esteve em vigor até setembro, e foi imposto um confinamento geral à população, que inicialmente só estava autorizada a circular entre 07:00 e as 11:00. 

Aumento de casamentos forçados

Segundo Laudolino Medina, tradicionalmente na Guiné-Bissau há dois períodos em que se regista um aumento do casamento forçado, quando começa o jejum dos muçulmanos e a época das colheitas agrícolas. "Agora, com a pandemia, o fenómeno tornou-se frequente e praticamente todas as semanas recebemos meninas. Umas vêm referenciadas pelas autoridades e outras aparecem pelos próprios pés", disse.

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Covid-19: Guineenses em Hamburgo doam 40 mil máscaras à Guiné-Bissau

Laudolino Medina explicou também que as meninas que aparecem na associação são provenientes das regiões norte, sul e leste do país e algumas do Setor Autónomo de Bissau.

"O confinamento fez aglomerar mais pessoas em casa e com as dificuldades do dia-a-dia. Os familiares tiveram mais condições para fazer outras práticas como a mutilação genital feminina", disse Fatumata Djau Baldé.

Segundo a ativista, há informação de um aumento da mutilação genital feminina no país, mas ninguém denuncia, principalmente na região de Gabu.

Mas, para Fatumata Djau Baldé, a luta para o abandono das práticas nefastas "não tem sido uma prioridade dos sucessivos governos" na Guiné-Bissau. "É preciso fazer uma leitura científica entre a taxa de mortalidade materna e infantil" e as práticas nefastas, disse, lamentando que isso apenas será feito quando o Governo perceber que abolir aqueles comportamentos é uma "causa nacional".

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) advertiu no início de março que mais 10 milhões de casamentos infantis podem ocorrer antes do final da década. A pandemia, que provocou o encerramento de escolas, dificuldades económicas, interrupções nos serviços de acesso à saúde e a morte de pais, está a colocar as meninas em situação mais vulnerável e a correr um maior risco de fazerem um casamento precoce.

Guiné-Bissau registou mais de 3.500 casos de infeção pelo novo coronavírus e 55 vítimas mortais associadas à covid-19, desde o início da pandemia no país, a 25 de março de 2020.

fonte: DW África



terça-feira, 16 de março de 2021

Nova organização quer ser "Governo Sombra" em Angola

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Inspirada em organização anticolonial, a União dos Povos de Angola foi apresentada ao público esta segunda-feira em Luanda. A U.P.A pretende assumir as funções de "Governo Sombra" e fiscalizar o Governo do MPLA.


Dez anos depois de participar na organização de manifestações contra o Governo do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), o ativista Pedrowski Teka encontrou uma forma para a conquista da alternância do poder político em Angola. 

Cansado de criticar o regime que controla as instituições do Estado desde a independência, em 1975, e reprime com violência os seus críticos, o ativista diz que chegou a hora de implementar novas ideias políticas no país.

Discursando na apresentação pública da União dos Povos de Angola (U.P.A) esta segunda-feira (15.03), Teka afirmou que o movimento que lidera vai integrar a "Frente Patriótica” - levada a cabo pela União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), Bloco Democrático (BD) e PRA-JA Servir Angola, de Abel Chivukuvuku.

Angola Aktivist Pedrowski Teka

Pedrowski Teca: "A UPA não é um livro fechado"

"Oposição no poder"

O ativista acredita que a presença da U.P.A na plataforma da oposição vai influenciar a juventude e ajudar a "colocar" a oposição no poder. "Queremos chegar ao poder central. Mas, como uma associação, somos impedidos. Não estaremos de fora da frente coletiva que é criada entre os partidos políticos, e juntos, vamos marchar porque acreditamos que a UNITA, o BD e o PRA-JA sozinhos não chegarão lá", destaca Teka.

Para o presidente da U.P.A, há necessidade de haver uma união entre os angolanos para "combatermos este mal chamado MPLA".

A organização de Teka é inspirada na União das Populações de Angola – movimento criado pelo nacionalista angolano Holden Roberto em 1958. A U.P.A de Teca foi lançada esta segunda-feira, 15 de março, dia em que se iniciou a guerra anticolonial.

Teka frisou que os ativistas também devem sonhar em conquistar o poder e governar. As leis sobre as eleições autárquicas, diz o presidente da U.P.A, permitem que qualquer angolano concorra às autarquias. Será este o primeiro objetivo da U.P.A, frisa.

A defesa da identidade cultural angolana também está na agenda desta plataforma juvenil. O Panafricanismo é a visão ideológica desta organização que já está representada em dez das dezoito províncias de Angola.

Organisation zur Implementierung einer Schattenregierung in Angola

Américo Vaz: "Precisamos que a sociedade assuma o compromisso que tem"

Governo Sombra

Nos próximos tempos, a organização vai apresentar o que chama de "Governo Sombra”, o Governo Revolucionário em Experiência, que terá a missão de monitorar os trabalhos desempenhados pelos governantes indicados pelo Presidente da República. Na primeira fase, estará em funcionamento nos departamentos ministeriais dos setores fundamentais como são a Educação, Saúde e Habitação, disse Pedrowski Teka à DW África.

"Será um processo, a U.P.A não é um livro fechado, construímos a U.P.A e tudo isso são ideias que temos para poder implementar, mas a questão aqui é mesmo fazer atuações políticas e cívicas", explica.

O ato de lançamento da U.P.A, cuja vice-presidente é a ativista Rosa Mendes, foi testemunhado por figuras da classe política e da sociedade civil.

Para o político Américo Vaz, que esteve no evento, a sociedade civil deve ocupar o seu espaço para participar na vida pública.

"Precisamos hoje, que a sociedade assuma de fato, o compromisso que tem. Ela é parte do processo de democratização deste país e temos muitas realidades. Hoje as democracias em África - quando falamos do Senegal, do Uganda, do Quénia e da África do Sul - são frutos da participação efetiva da sociedade civil", defende Américo Vaz.

fonte: DW África



segunda-feira, 15 de março de 2021

Senegal: esses oponentes passaram para caso de prisão.

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Acusado de estupro, o MP Ousmane Sonko denuncia um "complô" para removê-lo da corrida presidencial. Antes dele, Idrissa Seck, Karim Wade e Khalifa Sall experimentaram reveses legais devastadores em suas carreiras.

Desde o início de fevereiro, o Senegal vive ao ritmo do caso Ousmane Sonko, que leva o nome deste oponente acusado de "estupro" e "ameaças de morte" por um funcionário de uma casa de massagens onde tinha os seus hábitos. Na semana passada, o caso tomou um rumo político quando o parlamentar de 46 anos foi preso por "perturbação da ordem pública" e "participação em manifestação não autorizada" ao se render, cercado por importante procissão de simpatizantes, por intimação à Justiça .

Sua prisão gerou manifestações que às vezes degeneraram em saques, saques e confrontos entre jovens e agentes da lei. Violência que deixou pelo menos cinco mortos - onze segundo o Movimento pela Defesa da Democracia (M2D), que lidera o protesto.

Ousmane Sonko, que foi libertado na segunda-feira, 8 de março, sob supervisão judicial, afirma ser vítima de um complô arquitetado pelo chefe de Estado, Macky Sall, para excluí-lo das eleições presidenciais de 2024. Na eleição anterior, o O candidato do sistema, líder do partido Senegalês Patriotas pelo Trabalho, Ética e Fraternidade (Pastef), ficou em terceiro lugar, com 15,7% dos votos, atrás de Macky Sall (58,3%) e Idrissa Seck (20,5%). Para seus partidários, não há dúvida de que essas acusações são uma dádiva de Deus para o chefe de Estado, que se livraria de um novo oponente pesado ... depois de Karim Wade e Khalifa Sall.

Nos últimos anos, vários políticos proeminentes foram alvos da justiça no Senegal, um país aclamado por seu respeito pelo jogo democrático. Lembre-se de três casos emblemáticos que chegaram às manchetes.

Idrissa Seck e os estaleiros Thiès

O caso ocorreu durante a presidência de Abdoulaye Wade. O ex-oponente de Léopold Sédar Senghor e Abdou Diouf, que ascendeu ao cargo mais alto em 2000, escolheu Idrissa Seck, um de seus seguidores, como chefe de gabinete e depois primeiro-ministro. Muito rapidamente, a relação entre os dois homens azedou. O Chefe de Estado suspeita que seu pupilo tenha dentes um pouco compridos demais e queira destituí-lo durante as eleições de 2007. Por sua vez, o Primeiro-Ministro acusa seu mentor de promover o surgimento de outro golfinho na pessoa de seu filho, Karim Wade.

Idrissa Seck foi demitida do governo em abril de 2004 - e substituída por um certo ... Macky Sall - mas o caso não terminou aí. Em 2005, o presidente Wade partiu para o ataque, criticando-o por administrar os canteiros de obras na cidade de Thiès. De acordo com um relatório da Inspecção-Geral do Estado elaborado a seu pedido, cerca de 21 mil milhões de francos CFA (32 milhões de euros) foram gastos em trabalhos "não autorizados". Em julho, Idrissa Seck foi acusada de "traição, desvio de dinheiro público, corrupção e minar a segurança do Estado". Preso na prisão de Rebeuss, ele não foi libertado até fevereiro de 2006, inocentado.

Ele então criou seu próprio partido, Rewmi, e concorreu à presidência em 2007, mas sua pontuação de 14,9% não permitiu que ele preocupasse Abdoulaye Wade, reeleito com 55,9% dos votos. Idrissa Seck é novamente candidata em 2012 e 2019. Embora na época de sua desgraça acusasse Macky Sall de ter participado da "conspiração" contra ele, parece que desde então se reconciliou com ele, pois ingressou na maioria presidencial em novembro 2020.

Enriquecimento ilícito de Karim Wade

O caso ocorreu durante a presidência de Abdoulaye Wade. O ex-oponente de Léopold Sédar Senghor e Abdou Diouf, que ascendeu ao cargo mais alto em 2000, escolheu Idrissa Seck, um de seus seguidores, como chefe de gabinete e depois primeiro-ministro. Muito rapidamente, a relação entre os dois homens azedou. O Chefe de Estado suspeita que seu pupilo tenha dentes um pouco compridos demais e queira destituí-lo durante as eleições de 2007. Por sua vez, o Primeiro-Ministro acusa seu mentor de promover o surgimento de outro golfinho na pessoa de seu filho, Karim Wade.

Idrissa Seck foi demitida do governo em abril de 2004 - e substituído por um certo ... Macky Sall - mas o caso não terminou aí. Em 2005, o presidente Wade partiu para o ataque, criticando-o por administrar os canteiros de obras na cidade de Thiès. De acordo com um relatório da Inspecção-Geral do Estado elaborado a seu pedido, cerca de 21 mil milhões de francos CFA (32 milhões de euros) foram gastos em trabalhos "não autorizados". Em julho, Idrissa Seck foi acusada de "traição, desvio de dinheiro público, corrupção e minar a segurança do Estado". Preso na prisão de Rebeuss, ele não foi libertado até fevereiro de 2006, inocentado.

Ele então criou seu próprio partido, Rewmi, e concorreu à presidência em 2007, mas sua pontuação de 14,9% não permitiu que ele preocupasse Abdoulaye Wade, reeleito com 55,9% dos votos. Idrissa Seck é novamente candidata em 2012 e 2019. Embora na época de sua desgraça acusasse Macky Sall de ter participado da "conspiração" contra ele, parece que desde então se reconciliou com ele, pois ingressou na maioria presidencial em novembro 2020.

Khalifa Sall e o "adiantamento em dinheiro"

A prefeitura de Dakar serviria de trampolim. Terá sido apenas uma tábua ensaboada. Em 2009, Khalifa Sall foi eleito chefe da capital senegalesa. Aparência jovem apesar da idade (na época 53 anos), olhar determinado, eloqüência ... O socialista, que foi ministro da presidência de Abdou Diouf (1981-2000), pode alimentar belas ambições políticas. Reeleito em 2014, está até prestes a se tornar um sério concorrente de Macky Sall nas eleições de 2019. Ele, aliás, não se dissociou da coalizão construída em torno do presidente? Sua notoriedade continua crescendo, mesmo além dos limites de Dakar.

Infelizmente, os problemas legais não terão esperado até o final de seu segundo mandato para alcançá-lo. Em março de 2017, Khalifa Sall foi submetido a um mandado de prisão com cinco dos seus colaboradores: o tribunal acusa-o de utilização "sem justificação" de 1,83 mil milhões de francos CFA (2,8 milhões de euros) dos fundos da Câmara Municipal. Foi, portanto, da sua cela que fez campanha para as eleições legislativas de julho, que ganhou no seu círculo eleitoral de Dacar. Mas dificilmente terá tempo de saborear a sua vitória: a Assembleia Nacional vota em novembro de 2017 pelo levantamento da sua imunidade parlamentar ...

Em última análise, Khalifa Sall foi condenado em agosto de 2018 pelo Tribunal de Recurso de Dakar a cinco anos de prisão por "falsificação" e "fraude envolvendo fundos públicos". Ele nega as acusações, argumentando que os prefeitos de Dacar sempre tiveram à disposição um "adiantamento em dinheiro" destinado à sua ação política. Macky Sall o dispensou de seu cargo na prefeitura, antes de conceder-lhe o perdão presidencial um ano depois. Desde então, Khalifa Sall tem se afastado de uma vida política em que as cascas de banana judiciais são particularmente escorregadias.

Fabien Mollon

fonte: seneweb.com

Manifestações no Senegal: prisão de 23 pessoas que tentaram destruir o Gabinete do "Banco Coris".

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23 manifestantes identificados foram presos e encaminhados para a promotoria de Pikine. Estes últimos são acusados ​​de terem tentado quebrar a máquina multibanco de notas (Gab) do "Banco Coris" da localidade, informa o jornal l'Observateur.

Segundo a mesma fonte, esses supostos criminosos aproveitaram as manifestações para fazer o trabalho sujo.
Como um lembrete, após terem atacado e saqueado as lojas de Auchan, manifestantes foram relatados na noite de quinta-feira, 4 de março, na agência "Coris Bank" em Pikine.

Armados com pedras e outros projéteis, os manifestantes começaram a saquear a agência antes do assalto, na tentativa de arrombar a porta do caixa eletrônico (gab).

fonte: seneweb.com

História: Portugal informou EUA que independência de Angola resultaria em “caos económico e administrativo”.

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                                                         Jonas Savimbi, Agostinho Neto e Holden Roberto

Novos documentos revelam como Estados Unidos discutiram o interesse ou não em apoiar a evacuação de portugueses de Angola

Um mês antes da independência de Angola em 1975, o então ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Melo Antunes, informou o Presidente dos Estados Unidos, Gerald Ford, que a independência iria resultar no “caos económico e administrativo” de Angola, revelam documentos publicados pelo Departamento de Estado americano.

Melo Antunes disse que nenhum dos movimentos de libertação angolanos possuía quadros para garantir a estabilidade de Angola, revela a transcrição de uma reunião na Casa Branca entre Melo Antunes, o Presidente Gerald Ford e o então secretário de Estado, Henry Kissinger, que era também Conselheiro de Segurança Nacional de Ford.

Dezenas de documentos referentes às relações entre os Estados Unidos e Portugal, entre Outubro de 1973 e 1976, agora tornados públicos, reflectem com efeito a crescente preocupação do Governo americano face à radicalização dos vários Governos portugueses que se sucederam após o golpe de estado de 25 de Abril de 1974, à luz da guerra fria com a União Soviética e as implicações da retirada portuguesa de Angola nessa luta por influências entre as duas potências mundiais.

Neste contexto, as reuniões ao mais alto nível indicam como a independência de Angola torna-se não só um factor de preocupação para as autoridades americanas, mas também um instrumento de pressão em redor da questão da retirada de Angola de centenas de milhares de cidadãos portugueses, os chamados “retornados”, sobre os quais os dirigentes americanos chegam mesmo a discutir se o regresso desses portugueses iria favorecer forças anti-comunistas em Portugal ou se seria melhor permanecerem em Angola.

A ajuda ao regresso dos portugueses é também usada para tentar forçar os militares portugueses a deixarem de ajudar o MPLA, indicam os documentos que confirmam que, mesmo antes da proclamação da independência, navios carregados de material bélico soviético para o MPLA chegavam a Angola perante a passividade das autoridades portuguesas.

“Savimbi é mais inteligente, Neto é casmurro”

Um mês antes da independência de Angola, Melo Antunes deslocou-se à Casa Branca, a 10 de Outubro de 1975, para uma reunião em que o Presidente Ford pediu ao ministro português uma avaliação dos dirigentes angolanos, começando por perguntar se era sua opinião que Agostinho Neto era comunista.

“É muito próximo disso embora seja difícil classificá-lo como um comunista ortodoxo”, respondeu Melo Antunes, acrescentando “estamos bem cientes do apoio que tem recebido da União Soviética e de outros países socialistas, mas principalmente da União Soviética”.

Interrogado sobre os dirigentes dos três movimentos de libertação, o então ministro dos Negócios Estrangeiros português disse que o fundador e líder da FNLA, Holden Roberto, “não tem um fundo político muito sólido”.

“É facilmente corrompível e dependente de Mobutu”, afirmou em referência ao antigo Presidente do Zaire (agora República Democrática do Congo) onde Roberto se encontrava.

Dos três dirigentes, sublinhou Melo Antunes, “(Jonas) Savimbi é o mais inteligente, o mais capaz e o mais forte politicamente”, embora “alguns ponham em causa o seu senso político”.

“Tem jogado em todos os lados e mudou de apoiantes estrangeiros, e penso que irá acabar por perder popularidade devido a estas acções, mas de momento tem apoio considerável do Zaire e Zâmbia, enquanto (Agostinho) Neto (presidente do MPLA ) devido à sua casmurrice perdeu algum apoio”, acrescentou.

O Presidente Ford quis depois saber de Melo Antunes qual a opinião dele sobre o futuro de Angola, tendo em conta a saída dos portugueses e perguntou se “com os refugiados a saírem (os movimentos de libertação) têm capacidade para governar a economia?”

“Pelo que sei de Angola – e estou familiarizado com isso em profundidade – vamos ver o caos económico e administrativo”, respondeu o então ministro português.

“Não têm os números necessários para mantê-lo”, acrescentou Melo Antunes, quem avisou também o Presidente americano existir a possibilidade de Cabinda se separar de Angola com apoio do Zaire e do Congo Brazzaville.

Isso, disse Melo Antunes teria “graves consequências” para Angola “devido ao seu valor económico”.

Os retornados e a ajuda portuguesa ao MPLA

Um mês antes dessa reunião, num encontro de alto nível em Washington, Henry Kissinger, o então embaixador dos Estados Unidos em Portugal Frank Carlucci e, entre outros, William Hyland, director de Inteligência e Investigação, e Arthur Hartman, secretário de Estados Assistente para Assuntos Europeus, discutiram a situação em Portugal, onde a luta entre diversas facções do Movimento das Forças Armadas se agudizava.

Na altura, Kissinger afirma que não concordará em aumentar os voos americanos para evacuação dos portugueses “até termos um melhor entendimento com os portugueses sobre Angola do que temos agora”.

A transcrição do que foi dito nessa reunião revela uma tensão entre Carlucci e Kissinger sobre o papel de Portugal em Angola e ainda diferentes opiniões em torno do impacto dos “retornados” para a política americana em relação a Portugal.

Henry Kissinger
Henry Kissinger

“Eu quero que os portugueses compreendam que estamos contra o papel que estão a jogar ali e particularmente no que diz respeito à sua ajuda ao MPLA”, disse Kissinger.

O embaixador Carlucci tenta defender as autoridades portuguesas afirmando que o então Presidente Costa Gomes tinha contactado os Estados Unidos sobre a questão de Angola e “nós nunca respondemos”.

“Basicamente estavam a pedir-nos para segurar Mobutu”, afirma Carlucci em referência ao Presidente do então Zaire, acrescentando que as autoridades portuguesas “afirmam seguir uma política de neutralidade estrita”.

Kissinger responde então que “temos informações que indicam o contrário, envolvendo operações militares no terreno em Angola, em que os portugueses aconselham o MPLA sobre que estradas a seguir, etc.”.

“O facto é que o MPLA passou de ser a terceira força mais forte em Angola para a mais forte hoje, alguém teve que os ajudar a conseguir isso”, acrescenta Kissinger, ao que o embaixador Carlucci diz não se opor a discutir isso com as autoridades portuguesas desde que “tenhamos a certeza” dos factos, lembrando que “o objectivo prioritário dos portugueses é sair”.

Kissinger afirma em resposta que não quer que Portugal faça “pender a balança para o lado do MPLA e é isso que estão a fazer”.

Carlucci argumenta que se isso está a acontecer será “por omissão” e não propositadamente com “acções especificas” ao que Arthur Hatman interrompe afirmando: “Bem, obviamente, navios não podem estar a descarregar equipamento militar em Angola, como carros blindados sem os portugueses saberem o que se passa”.

Quando o embaixador Carlucci afirma que “temos que ser realistas sobre isto” é interrompido por Kissinger: “Estamos a ser realistas. Não vamos avançar mais com a ponte aérea se não mostrarem cooperação”.

Hartman sugere então que a suspensão dessa ajuda à evacuação dos portugueses poderá não ser de benefício para os interesses americanos em Portugal pois “vão regressar a Portugal enraivecidos contra o MPLA e por isso, nesse caso, queremos que voltem a Portugal”.

Kissinger responde então que o regresso dos portugueses “é obviamente útil em Portugal, mas em Angola podem também ser úteis devido às suas atitudes em relação ao MPLA e FNLA”.

Quando Carlucci afirma que Hartman “tem um bom argumento” Kissinger volta a interromper: “Repito: O seu regresso ajuda-nos em Portugal mas pode prejudicar-nos em Angola”.

O então secretário de Estado diz que os Estados Unidos “não estão a pedir aos portugueses para expulsarem o MPLA”.

“Queremos três coisas dos portugueses: Queremos que sejam genuinamente neutros como dizem que são; queremos que não aceitem como estão a fazer agora o fornecimento de armas ao MPLA; e queremos que deixem de pressionar Savimbi para chegar a um acordo com o MPLA em qualquer tipo de coligação. Queremos que isso seja reflectido na sua política até 11 de Novembro”, resume Kissinger.

"Temos cerca de oito semanas até a situação se tornar irreversível”, avisa o então chefe da diplomacia americana que, noutro momento, insiste que os Estados Unidos querem “algumas garantias concretas sobre o que estão a fazer quanto à entrega de armas soviéticas e queremos saber o que estão a fazer sobre as pressões a serem exercidas sobre Savimbi”.

Noutro passo da reunião, Kissinger pergunta a Carlucci “o que é que Coutinho anda a fazer?”, numa referência ao almirante Rosa Coutinho tido como um defensor dos interesses do MPLA dentro do Governo português.

“Neste momento muito pouco”, responde Carlucci.

O acordo de ajuda

Já depois da visita de Melo Antunes à Casa Branca, o Conselho Nacional de Segurança elaborou um memorando em que se revela uma ajuda americana de 35 milhões de dólares para ajuda e recolocação de refugiados idos de Angola e cerca de 20 milhões de dólares em ajuda económica a longo prazo a Portugal.

O documento revela que ficou acordado “aumentar o nosso transporte aéreo de refugiados angolanos de 500 para mil evacuações por dia” e acrescenta que desde 7 de Setembro desse ano os Estados Unidos tinham evacuado aproximadamente 13 mil refugiados de Angola.

O memorando indica que “uma grande preocupação dos Estados Unidos é que na sua pressa (de sair de Angola) Portugal irá retirar as suas tropas e deixar quantidades significativas de equipamento e material militar a maior parte do qual poderá cair nas mãos do Movimento Popular”.

“Tornamos claro ao Governo português que o nosso acordo para duplicar a nossa ponte aérea depende das garantias que o Movimento Popular não ficará em posse do equipamento militar português actualmente em Angola”, reafirma o memorando.

Refira-se que alguns documentos contêm nomes razurados para esconder a identidade de contactos e fontes de informação dos Estados Unidos.


fonte: VOA

História: Vamos "beber um Samora", disse Julius Nyerere a Henry Kissinger.

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                                                                                      Samora Machel


Presidente tanzaniano propôs brinde com vinho a que deu o nome do primeiro Presidente de Moçambique

"Beba um Samora", foi o convite para um copo de vinho feito pelo então Presidente da Tanzânia Julius Nyerere quando em Abril de 1976 se reuniu em Dar Es Salaam com o então Secretário de Estado Americano Henry Kissinger.

Documentos recentemente divulgados pelo Departamento de Estado revelam os dois estadistas numa atmosfera amigável e jovial quando nesse dia se reuniram para discutir a situação na então Rodésia (hoje Zimbabwe), África do Sul e Namíbia.

Nesse encontro Kissinger declara logo de início que “estou pronto a colocar o poder dos Estados Unidos em apoio à libertação da Rodésia, em termos inconfundíveis, para que Smith (Iam Smith primeiro-ministro da Rodésia) e Vorster (John Vorster primeiro-ministro sul-africano) não possam ter mal entendidos”.

“Eu não gosto de fazer viagens de boa vontade mas gosto de ver resultados e estou disposto a admitir erros do passado”, disse Kissinger acrescentando querer colaborar com África e “trabalhar consigo”.

Depois do Presidente tanzaniano afirmar que “libertação não é suficiente, precisamos de desenvolvimento económico”, Nyerere pede “pressão sobre o regime da Rodésia, pressão sobre Vorster na questão da Namíbia e em último lugar para mudança na África do Sul”.

Julius Nyerere
Julius Nyerere

“Podem não poder dar-nos armas, mas o que é vocês nos podem dar?”, interroga Nyerere ao que Kissinger responde acreditar que “sem governo de maioria não pode haver paz e desenvolvimento africano independente”, para depois avisar que “em casos como Angola onde exércitos estrangeiros estão presentes isso é um problema para nós”.

O Presidente tanzaniano sublinha que“a Rodésia e Namíbia são as nossas prioridades, a África do Sul é mais difícil”, acrescentando que “África compreende a questão colonial mas não compreende totalmente o problema da África do Sul e não pensou bem em como resolvê-lo”.

Kissinger discute depois com o Presidente tanzaniano um discurso que irá fazer em Lusaka na Zâmbia e pede a opinião do presidente sobre o seu plano de apelar aos países vizinhos da Rodésia para encerrarem as suas fronteiras com a então Rodésia.

O interesse de Kissinger em encontrar-se com Samora Machel

Kissinger manifesta depois interesse em encontrar-se com o Presidente moçambicano Samora Machel numa reunião da UNCTAD em Nairobi ao que o Presidente tanzaniano responde que “não posso garantir o presidente mas tenho a certeza que posso organizar pessoal senior”.

Depois de mais discussões sobre o discurso que Kissinger irá fazer em Lusaka, Nyerere diz a Kissinger que as relações do seu país com Moçambique “são muito amistosas”.

“Não temos o mesmo sistema deles, não lutamos uma guerra de guerrilha, fizemos um pouco de agitação uma coisa muito britânica”, diz Nyerere no meio de risos que depois afirma que os britânicos “não compreendem totalmente o que se passa em Moçambique’.

“Eu também não”, diz Kissinger no meio de risos das duas delegações.

Mas, diz Nyerere, “damo-nos muito bem com eles”.

Samora Machel e Julius Nyerere
Samora Machel e Julius Nyerere

“Eles respeitam muito os chineses por construirem a Frelimo”, acrescenta Nyerere que depois diz ter discordado dos chineses “na questão de Angola” e "também com a Zâmbia".

“Foi muito doloroso”, disse o Presidente tanzaniano.

Kissinger insiste em querer encontrar-se com representantes de Moçambique.

“Vou enviar uma mensagem e essa mensagem poderá ser a sua declaração em Lusaka. Vou dizer que devem enviar alguém, o ministro dos negócios estrangeiros”, responde Julius Nyerere.

Venha um Samora

Depois de terminadas as conversações Nyerere oferece um copo de vinho a Kissinger que recusa.

“Você é um abstémio”, diz Nyerere que acrescenta que “eu também era um abstémio, até à vitória em Moçambique”.

“Nunca lidei com Portugal e não conhecia o vinho português”, recordou o Presidente tanzaniano.

"Depois Samora (Samora Machel Presidente de Moçambique) descobriu quantidades e quantidades de vinho nas caves lá e mandou-as para mim. Por isso vão servir-lhe agora”, insistiu o Presidente tanzaniano no meio de risos, diz a transcrição.

“Desde que Samora me enviou o vinho eu chamo-lhe Samora. Digo sempre: Tragam-me Samora”, disse o Presidente tanzaniano e segundo a transcrição estas palavras foram acompanhadas de risadas.

O documento não diz se Kissinger bebeu ou não um Samora mas diz que Kissinger descreveu o futuro Presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan como “um antigo actor, não sabe o que diz mas diz isso com muita efectividade” ao que alguém na delegação responde:

"Daria um bom embaixador".

fonte: VOA

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