NO BALUR I STA NA NO KUNCIMENTI, PA KILA, NO BALURIZA KUNCIMENTI!...

Assinala-se
mais um aniversário do passamento físico do líder fundador da UNITA,
Jonas Malheiro Savimbi. Angola está melhor com ele morto ou acha que
faria alguma diferença se ainda fosse vivo?
Infelizmente temos de
começar esta entrevista falando do Dr. Savimbi, morto em combate em
2002. A morte do Dr. Savimbi teve quase a mesma similitude do
desaparecimento de Yasser Arafat. Naquela altura, os israelitas diziam
que o problema palestiniano teria solução com o desaparecimento de
Yasser Arafat e tudo foi feito até que lhe envenenaram e o mataram. Mas
as coisas estão mais do que demonstradas que Yasser Arafat era a solução
e não era o problema. Aqui em Angola também deu-se a mesma coisa, nós
tivemos transições muito turbulentas desde 1974 e, com a assumpção da
independência em 1975, os angolanos nunca se entenderam. O partido ou
movimento com mais força na altura era a FNLA, em termos materiais o
MPLA e a UNITA em volta de si a força do seu líder, mas vinha no
terceiro escalão. Nós percebemos que naquela altura a primeira coisa que
o MPLA queria era colocar a FNLA fora da arena política e é o que fez.
Houve corações de pessoas que foram encontradas nos frigoríficos,
falou-se que as pessoas da FNLA comiam pessoas, do Samuel Abrigada que
tinha roubado dos cofres do Governo de Transição 100 mil contos.
Falou-se de muita coisa, mas afinal vimos que aquilo foi feito no âmbito
de uma propaganda atroz para colocar a FNLA fora do processo político
angolano. A UNITA, que resistiu, foi vista pelo MPLA como o alvo a
abater a seguir. E Dr. Savimbi, nisso, foi um exímio estratega,
político, militar, diplomata, que conseguiu trazer uma solução para a
África Austral, porque do ponto de vista militar não se teria encontrado
uma solução para o problema sul-africano nem para a independência da
Namíbia. A resistência da UNITA aqui permitiu que as Nações Unidas
tivessem assumido a resolução 435 que impôs a retirada dos cubanos,
independência da Namíbia, posteriormente os avanços que existiram com a
solução sul-africana, a libertação de Mandela e a aproximação dos
angolanos. Nesta caminhada, vocês já teriam visto, a diabolização do Dr.
Savimbi foi a peça fundamental da política angolana até ao seu
desaparecimento. Agora volto a dizer que o Dr. Savimbi era a solução de
muitos problemas de Angola, não era o problema. Da mesma forma que
Yasser Arafat não era o problema, Savimbi também não o era aqui em
Angola.
Não pensa que o fim
do conflito, com a sua morte em combate no Moxico, terá sido fruto de
alguma intransigência da parte do líder fundador da UNITA?
Não,
não. Dr Savimbi não teve intransigência nenhuma neste processo todo. O
que havia era do outro lado uma política de subalternização, integração e
não era isso que os Acordos de Alvor, que são o fundamento de todo
processo político em Angola, diziam. Os partidos ou movimentos de
libertação – FNLA, MPLA e a UNITA- eram os legítimos representantes do
povo angolano, mas o MPLA arvorava-se a si próprio como se fosse o
único. Esse foi sempre o pomo da discórdia que levou Angola para
conflitos desnecessários, mas o problema não está resolvido. Neste
preciso momento nós temos uma paz que significa o calar das armas, mas
não temos paz política ou social, as pessoas continuam a desaparecer,
temos um Governo que tem medo do povo, não resolve o problema da água e
luz. Os angolanos empobreceram muito mais. Eu que vi um bocadinho o
tempo colonial, se o meu pai estivesse vivo diria mesmo que regredi
bastante, olhando para o que nós eramos e o que somos hoje. E isso terá
tido solução com a morte do Dr. Savimbi? Não. Temos uma paz militar que
significou o calar das armas, mas não temos uma paz social nem
política.
Foi um dos poucos
generais que esteve ao lado de Jonas Savimbi quando este morreu a 22 de
Fevereiro, no Lucusse. É fácil lidar com esta realidade?
Olha,
isso vai desaparecer comigo. Aquele dia fatídico passa por mim sempre
que tiver que me recordar disso, mas faço um esforço. Primeiro, a
formação religiosa que eu tive, fui seminarista, tem-me dado força
mental suficiente para poder perdoar, ultrapassar todo aquele calvário
que passamos naquela altura. Agora estamos numa outra luta que é a
democratização do país e envolve todos vocês.
Como
religioso podemos dizer que foi salvo por Deus quando foi carregar as
pilhas num outro local e minutos depois o líder que acompanhava é morto
na tenda em que se encontrava?
Há muita coisa que os homens
não sabem explicar. Tive na minha vida situações de sobrevivência que
arrepiam as pessoas. Fui 1º comissário político da UNITA no Cubal, em
Benguela, e em 1975 começam as escaramuças, fui capturado pelo MPLA, com
outros companheiros. Fomos parar na delegação do MPLA, ouvi que tinham
sido capturados também mais de 30 e tal militares, estes até estavam
desarmados, tinham chegado havia bem pouco tempo de Cangumbe. A UNITA
não tinha fontes de armas, as suas tropas e aqueles jovens estavam aí só
para o asseguramento da delegação. Foram capturados todos e
assassinados naquele período. E nós, na delegação do MPLA, a dado
momento chegou um senhor que estava a recuar do Alto Catumbela, ali onde
temos a fábrica de papel. Encontrou-nos aí e começou a falar com os
responsáveis do MPLA no Cubal. Perguntou-lhes se tinham capturado os
comissários políticos da UNITA, porque éramos dois: eu mais o meu colega
Ernesto Vindengandenga. Eles disseram que não tinham capturado nenhum
comissário político e que os senhores que ali estavam são da JURA. E ele
diz assim: “se tivessem capturado o comissário político devia ser
eliminado rapidamente, porque estes é que estão a mobilizar mal o povo”.
“Agora, os jovens da JURA mandem para o CIR de Benguela”. Ele quando
sai e os senhores da delegação do Cubal do MPLA dizem que “se fosse um
mestiço ou branco ele teria levado para Benguela, mas por se tratar de
negros nós devíamos matar. Esta porcaria é que não está bem”. E quando
se deu o 27 de Maio vim a perceber que o MPLA sofre de problemas muito
graves do ponto de vista racial, porque não solucionaram bem o problema
da convivência nacional. Este foi um momento da minha sobrevivência
também, porque se os elementos do MPLA tivessem dito que eu era o
comissário político da UNITA, teria sido morto naquela altura. Vim a
saber mais tarde que afinal de contas esse senhor era membro do Comité
Central do MPLA. Sobrevivi a mais esta, que aconteceu naquela altura.
Estava a conversar com o Dr. Savimbi durante a caminhada,
desprendemo-nos do grupo maior que ficou com o vice-presidente Dembo. Eu
e o Dr. Savimbi ficamos com 13 pessoas apenas e a dado momento achei
que devia carregar as minhas pilhas para escutar o relato, porque por
volta das 21 horas ocorreria o jogo Guimarães-Sporting. Quando vou para
carregar as pilhas os tiros começam. Volto para o local de onde tinha
saído e vejo o Dr. Savimbi a levantar-se e a cair, portanto tinha sido
alvejado, e depois disso desprendi-me até que estamos aqui neste preciso
momento.
As 13 pessoas de que falou há pouco estão vivas?
Todas
elas, só o Dr. Savimbi é que morreu. Segundo o que me vieram dizer
posteriormente, a esposa do Dr. Savimbi, Dona Valentina, teria ficado
ferida ligeiramente e mais um capitão, acho eu. É a informação que tive
já depois de ter chegado a Luanda. Estas pessoas estão vivas.
Algumas
pessoas acreditam que o desfecho militar da UNITA terá sido
consequência do facto de Jonas Savimbi ter-se cercado de generais mais
novos e preterindo os mais experientes. Também acredita nisso?
Essa
é uma outra história que um dia terei de contar aos angolanos e aos
militantes do nosso partido sobre o que aconteceu naquele período. Os
que faziam parte do estado-maior naquela altura eram o Bock, como chefe
do Estado-Maior, eu, como vice-chefe do Estado-Maior e chefe das
operações e o falecido Vatuva, como comissário-político. O Bock e o
Vatuva já são desaparecidos, ainda estou aqui eu e tenho alguns
apontamentos feitos, acho que brevemente farei sair uma obra a falar
disso. Quero dar mais algum tempo para deixar passar alguns processos
que podem implicar muita gente. De facto, o que aconteceu é que nós
tivemos uma fase mais complexa que depois retirou o protagonismo
daqueles que tinham comandado, que eram os comandantes principais da
UNITA até recentemente. E neste último conflito que começou em 1998
apareceram novos protagonistas e depois arrumaram com as FALA. Neste
momento só é isso que lhe posso dizer.
O que é que pretende dizer com “arrumaram com as FALA”?
Sinceramente
digo-lhe com toda a verdade, quando se diz que a UNITA foi derrota não
acredito. As FALA não foram derrotadas. E repito-lhe: As FALA não foram
derrotadas. O que aconteceu é que o alto comandante tinha morrido. Os
principais generais que eram os comandantes das Forças Armadas naquela
altura, os generais Kamorteiro, Samy e Kalias, tinham sido capturados.
Como você sabe, o que estou a dizer não é nenhuma heresia, eles
apareceram aqui como pessoas capturadas. E a partir daí houve uma
sincronização feita entre esses companheiros, as comunicações do
presidente Savimbi, os seus companheiros que tinham sido capturados e as
FAA, uma manobra que permitiu enviar mensagens para todas as redes da
UNITA a dizer que eram ordens do vice-presidente Sebastião Dembo, já que
o Dr. Savimbi tinha morrido. Naquela altura, o falecido
vice-presidente, que morreu no dia 25, três dias depois, não enviou
nenhuma mensagem para que as forças armadas parassem. Mandou-se parar o
conflito em todo o país e a partir daí houve uma gama de manobras que
foram travadas pelo Gato, que era o secretário-geral, quando o Governo
dizia que estava a negociar o problema com o grupo do Kamorteiro. E o
Gato dizia que o Governo não podia discutir com os capturados, mas sim
com pessoas livres. Foi nessa altura que se processou a transição da
negociação do grupo do companheiro Kamorteiro que estava aqui e o do
companheiro Lukamba Gato enviado para o Luena.
Ainda existem mistérios em relação a morte de Jonas Savimbi?

Para
quem procura fantasmas acho que há. O que aconteceu é que nós fomos
atacados e houve algum ripostar muito simples, porque também não
tínhamos muito armamento no local. Poucas pessoas estavam armadas e foi
um combate de pouca monta. Tínhamos feito uma manobra com um grupo de 13
pessoas numa mata muito cerrada, pensávamos que não seríamos detectados
facilmente. Por isso, o nosso cordão defensivo não era uma coisa muito
grande, era muito próximo, um cordão de uns 30 metros em relação a tenda
onde se encontrava o Dr. Savimbi. E depois, ainda nesta altura, das 13
pessoas ainda retiramos duas que enviamos para o patrulhamento, para ver
se detectava o grosso da coluna do vice-presidente Dembo. Tínhamos
ficado 11 pessoas e para quem procura fantasmas pode ver outras coisas,
mas o que aconteceu foi simplesmente isso. Agora há pessoas que dizem
que o Dr. Savimbi teria feito tiro contra si próprio, mas não foi isso
porque ele foi eliminado. Na altura em que eu estava a correr vejo o Dr.
Savimbi primeiro a cair, quando saio da zona, depois, sinto uma
cadência de tiros a serem feitos ao alvo. Taus, taus, taus… E as pessoas
que viram o corpo do Dr. Savimbi disseram que estava varado de tiros.
Portanto, acho que depois de terem derrubado o Dr. Savimbi continuaram a
disparar, acredito que tinham recebido ordens para que ele não saísse
daquilo vivo. Não queriam o Dr. Savimbi vivo. Era uma ordem que existia,
assim como outras, porque depois do Dr. Savimbi ter tombado neste
combate fui perseguido durante um mês, já os meus companheiros a
negociarem. Saí do Moxico e fui parar quase na província do Bié, durante
um mês, fiz uma manobra terrível a pé, a ser perseguido. Na minha
coluna ainda foram capturados majores, caímos em várias emboscadas. No
dia em que cheguei no Moxico, depois de ter feito as minhas manobras
para que a minha localização já não constituísse problema e os outros
soubessem que estava vivo, quando se dizia que o Numa tinha morrido,
infiltrei um major num grupo das FALA que estava com o senhor general
Condenado pronto para se movimentar para o local de aquartelamento no
Moxico. Ao lado estava já uma unidade das FAA e deste grupo os que eram
mais fracos deviam ir para o Moxico por via aérea. Pedi para que esse
oficial fosse por via aérea para dizer que eu estava vivo e que me
encontrava na área y. E foi assim que quando chegou ao Moxico comunicou
aos outros onde eu me encontrava, posteriormente também encontrei um
posto-rádio, comuniquei ao Gato e ele fez a comunicação a dizer que eu
tinha aparecido. Quando cheguei ao Moxico encontrei um coronel dos
Comandos das FAA, que me dizia: “Agora eu posso ir para Cabinda, todas
as forças já tinham sido deslocadas para Cabinda”. Porque ele estava aí
exactamente com ordens de que eu tinha de aparecer vivo ou morto. Mas,
pronto, felizmente tinha aparecido vivo.
Se
não há mistérios em relação a morte de Jonas Savimbi, o que dizer sobre
o desaparecimento de António Dembo? Porquê razão alguns supostos
familiares apareceram recentemente a exigir a localização dos seus
restos mortais?
O vice-presidente Dembo, estive com ele
durante muito tempo na área Norte. O Dr. Savimbi começou a despedir-se
havia muito tempo, falou com os quadros, deu indicações e uma das que
deixou era de que não tinha certeza que iria ficar mais dois anos. Mas
se ele desaparecesse o partido ficava muito bem nas mãos do Dembo. O
companheiro vice-presidente Dembo era um quadro muito querido dentro do
partido e era aceite. E quando ele morre ao lado estava o filho Jefo,
que alguns conhecem e ele está agora a terminar o curso de Engenharia
Informática. Portanto, ele está aqui e as pessoas podem falar com o Jefo
e sabem as condições em que o pai se encontrava. Uma das coisas que
acho que acelerou a morte do companheiro Dembo foi a diabetes, as
manobras que encetávamos durante a guerra, muito movimento, pouca comida
ou nenhuma mesmo, isso afectou um bocadinho a própria resistência dele.
E começou a perder muitas forças. Num período que vai de oito a 10 dias
também ficou sem a sua esposa. A dona Maria, na manobra que estávamos a
fazer na mata, ficou no grupo do Dr. Savimbi. Portanto, a dona Maria
faz parte do grupo das 13 pessoas que estavam no grupo do Dr. Savimbi,
mas depois o presidente fundador tinha ficado apenas com o filho Jefo.
Os outros seguranças tinham morrido, houve gente que morreu a fome e
outros que desertaram, fugiram. Muitos de nossos guardas desertaram por
causa da fome e outros foram se perdendo. E ela ficou de facto nestas
condições e depois não aguentou.
Falou-se
muito da existência de enormes quantidades de dinheiro e diamantes
muito valiosos em posse de Jonas Savimbi no dia em que morreu. É
verdade?
O que vou lhe dizer é o seguinte: no dia 22 de
Fevereiro de 2002, durante a nossa marcha acordamos um bocado cedo, eu
era a pessoa que estava a dirigir, operei muito tempo naquela área, a
dado momento sentimos muito fogo, muito intenso e nutrido na parte Sul.
Depois falei com Dr. Savimbi que era exactamente ao longo do rio Luio,
com precisão para a área do general Big Jó. Era exactamente na área onde
se encontrava e foi neste dia que o general Big Jó morreu. Então
tivemos de fazer um movimento para Nordeste, andamos no meio da mata e a
dado momento descansamos um bocado, era praxe. Naquela altura o Dr.
Savimbi levava uma pasta castanha, não sei se estou errado mas acho que
era mesmo castanha. Abriu a pasta e tinha alguns documentos. Acho que
tinha coisas muito queridas dele. E era nesta pasta onde, de facto,
havia um monte de diamantes. E o Dr. Savimbi dizia: olha, quando
encontrarmos os outros vamos ver como utilizar estes meios para podermos
socorrer o partido. Naquela altura também estávamos à procura de uma
forma de reconquistar um aeroporto para começarmos a obter recursos que
eram necessários. Os que encontram a pasta são os homens das FAA. Nela
havia documentos e estavam aí os diamantes.
A UNITA ainda está órfã de Jonas Savimbi?
Todos
nós tínhamos a consciência de que o desaparecimento do Dr. Savimbi
seria um problema de extrema gravidade para a própria UNITA. Não era uma
pessoa que seria fácil de substituir e a imensidão e a profundidade
cognitiva, o arcaboiço que o Dr. Savimbi apresentava são raros. Mesmo
aqui no nosso país é raro encontramos um homem daquela estaleca. Era um
excelente estudioso nas Ciências Sociais e ele tinha ganho uma grande
experiência, um líder que seguíamos sem questionar. Ninguém questionava o
Dr. Savimbi, porque era um grande líder. Era um líder que falava para
todas as pessoas e também sabia escutar. Escutava pessoas quase que nada
falavam. O Dr. Savimbi dizia assim: “Nunca despreze nenhuma pessoa. Em
uma hora de conversa com uma pessoa que você julga que não tem nada vais
apreender sempre alguma coisa”. Por isto tínhamos consciência de que o
seu desaparecimento seria um problema grave para a própria UNITA e como
tem-se revelado que sim. Portanto, nós continuamos com os nossos
problemas que ainda não ultrapassamos e o próprio partido tem feito
esforços para ver se rapidamente se ultrapassa esta fase. O importante é
que os quadros estão todos motivados, envolvidos e com certeza que as
soluções vão ser encontradas.
O Presidente Samavuka tem sido um substituto à altura?
O
Presidente Samakuva foi uma solução ajustada para o momento. Aquele
momento era muito crítico, um momento que precisava de uma pessoa com um
fleuma que se ajustasse para aquela circunstância e o Presidente
Samakuva conseguiu, de facto, fazer esta transição com muito sucesso.
Como vê hoje o partido em termos de democracia interna?
É
um aprendizado. Internamente discutimos os nossos problemas sem errar,
não temos nenhum receio de conversarmos. A UNITA nisso tem crescido
imenso e é só ver que nós fazemos os nossos congressos onde o presidente
é eleito. Acho eu que é o único partido que faz de forma muito aberta,
limpa, os outros partidos ainda votam com as mãos no ar ou o fazem de
outra forma. Ou é o Ngonda que não aparece e só o Ngola Kabangu, ora, as
vezes, é o Ngola Kabangu e o Ngonda aparece sozinho. O PRS também não
sei o que é que se passou por lá, vamos ver o que é que a CASA-CE vai
fazer, se tem democracia suficiente para não estar a encontrar
engenharias de liderança. Mas na UNITA isso tem sido superado e não tem
tido grandes problemas. Temos democracia interna sim, mas a democracia é
um território de aperfeiçoamento contínuo. Sabemos que ainda não
atingimos a excelência e vamos ao encontro. Vamos procurando
permanentemente ir ao encontro da excelência e melhorarmos os nossos
processos de discussão interna para estarmos à altura de sermos um
padrão de referência no nosso país.
O
senhor foi um dos poucos defensores da realização de um congresso
extraordinário na UNITA depois das eleições. Ainda é da mesma opinião?
Risos.
Esta é uma questão interna a que não me vou referir. Com certeza o
próprio partido, na altura da reunião da Comissão Política, fez um
comunicado e este problema não é só do Numa. É um problema interno e o
próprio partido vai encontrar, com certeza, soluções.
Faz sentido defender o projecto de Muanguai hoje?
Faz
sentido sim senhor. Você já viu católicos sem a Bíblia? É impossível. A
Bíblia é eterna, é a filosofia que alimenta uma crença e nós
acreditamos nos princípios fundados em Muangai. São bem claros:
democracia. O país terá de ter vários partidos políticos, dar prioridade
ao campo para beneficiar a cidade. É um princípio de desenvolvimento
sustentável que a UNITA vem já a falar desde os tempos idos. Hoje muita
gente utiliza estes chavões “desenvolvimento sustentável”, etc, etc, mas
a UNITA vem a falar disso há bastante tempo. Hoje temos uma economia
dos petróleos e as gerações futuras vão ter um problema gravíssimo,
porque o petróleo não é eterno e os dinheiros que nós conseguimos obter
com os petróleos andam pelo mundo, à devirá, na mão de pessoas e não
criamos infra-estruturas que vão sustentar o desenvolvimento de Angola
amanhã. Hoje continuamos com um ensino pobre, uma saúde débil, uma
infra-estrutura industrial inexistente, estradas assim pequeninas.
Quando se fala em auto-estrada você pensa que é uma coisa respeitável,
mas é só ver. Conheço um dirigente deste país que foi ao Burundi ou ao
Ruanda, chegou e quando foi para a Assembleia Nacional viu a imponência
da instituição e disse: “Ai meu Deus, como é que posso convidar aqui o
meu homologo a ir para Angola”? E penso que deve ter partido daí a ideia
de se fazer a actual Assembleia Nacional, que deve terminar em 2014.
Temos muitos recursos mas não estão a ser aplicados devidamente. Neste
preciso momento temos um dos maiores orçamentos de África. O orçamento
de Angola deve ser necessário juntar uns 30 países que andam por ai para
se fazer um orçamento de 70 biliões. Mas isso não vai resolver os
problemas de Angola, porque não vai resolver o problema da água, ensino,
energia. O dinheiro vai servir outros fins e é aí onde muita gente vai
debicar para se enriquecer de forma ilegal. Felizmente Muangai
recomenda-se e recomenda-se porque internamente também somos os
culpados. A UNITA não tem capacidade de explicar o que é Muangai. A
UNITA tem de passar para uma actividade pró-activa de forma a poder
explicar melhor o que significa Muangai, para os angolanos poderem
apreender melhor. O Muangai passado aqui não é o da UNITA, mas sim o
Muangai da diabolização. O Muangai da UNITA não é racista, não é
tribalista, porque a UNITA é União Nacional para Independência Total de
Angola. Recorda-se que em 1974, quando se definiu quem é o angolano, foi
o Dr. Savimbi que escreveu a definição que ficou na Constituição. Até
Lúcio Lara queria uma outra coisa, mas os outros não aceitaram e tiveram
de adoptar aquilo que o Dr. Savimbi tinha explicado. E ele tem uma
frase que anda nos telefones: “para mim primeiro o angolano, segundo o
angolano, terceiro o angolano, quarto o angolano, o angolano sempre.
Agora os outros não sei aonde ficam”. “A cooperação comigo não é muito
fácil”, porque ele não definia o angolano como negro, mestiço ou branco,
mas aquele que ama este país”.
Qual é
a verdadeira razão da constante fuga de quadros da UNITA? Depois das
eleições vimos muitos militantes do Kuando-Kubango a abandonarem as
fileiras e rumarem para o MPLA.
A história do Kuando-Kubango não
está bem contada. E vocês também comecem a ter um jornalismo
investigativo mais profundo, para não estarmos aqui na corda bamba do
MPLA. Isso vem desde 1974. Para o MPLA ainda não estamos em paz e vou
mais longe: para o MPLA o resto é inimigo, não é só mais a UNITA. Porque
é que se fala de indivíduos que saem de partidos e vão para o MPLA,
faz-se propaganda. Os outros partidos também recebem indivíduos, uns
saem para a UNITA, FNLA ou PRS. Porque é que se faz isso até hoje? As
pessoas tornaram-se troféus? Humilhar outros, os casos dos Valentins,
Hamukwayas, para serem apresentados ao público, olha aqui o Dr.
Hamukwaya, o general Black Power. Isto está errado. Não é correcto. São
angolanos e como tal têm opções. Não ficam com a UNITA, não ficam. Mas
também a UNITA não está a desaparecer, é um partido que se recomenda. A
UNITA está a aproximar-se dos dois milhões de membros, não é nenhuma
falácia. Há trabalho de mobilização, os dois milhões estão aí. Nós
tivemos alguns problemas nas eleições passadas, vamos ser contundentes
nisso porque tivemos um controlo muito deficitário. Controlamos ao nível
de 35 ou 36 por cento, ao máximo. É o que levou para os 32 deputados
que temos. A UNITA, se tivesse tido um controlo de 80 a 90 por cento nas
eleições passadas, ter-se-ia aproximado entre os 90 ou 100 deputados. A
UNITA teria chegado aí, mas o resto o MPLA foi governando sozinho,
atribuiu-se os votos que quis. Porque até ao último dia os delegados de
lista da UNITA não estavam credenciados, houve tanta manobra que
permitiu que chegássemos às eleições nas condições em que chegamos. As
pessoas dizem que as eleições foram livres e justas porque foram normais
e não houve problemas. Somos cívicos, queremos fazer o jogo democrático
de forma limpa, mas o MPLA controlou sozinho estas eleições.
A saída do deputado Abel Chivukuvuku foi um sério revés para a UNITA ou é algo que já esperavam havia muito tempo?
Primeiro,
digo que o Abel é um quadro angolano como qualquer outro e se ele achou
que tinha chegado o momento…O que senti inicialmente é que ele queria
ser presidente da UNITA. Ele fez muito por isso, concorreu para as
eleições no 11º Congresso e foi derrotado. O nome do Abel depois ficou
ligado aos grupos de reflexão, até que achou que não tinha terreno aqui e
foi-se embora. Agora que tenha sido um revés para a própria UNITA não,
porque o Abel não mexeu na estrutura dos membros da UNITA. Estou a lhe
dizer que nós tivemos um controlo eleitoral que anda a volta dos 35 a 36
por cento, mas mesmo assim tentaram fazer tudo para baixar a UNITA e
chegaram aos 32 deputados. Aqui em Luanda no mínimo teríamos eleitos
três deputados. Andam aqui a dizer que a UNITA ganhou no Cacuaco, mas
não foi só lá. A Viana, Kilamba Kiaxi, área do município de Belas.
Tivemos sim dificuldades aqui em Luanda no centro da Cidade. Ali a UNITA
tem de rever os seus métodos de trabalho para ver se encontra formas de
penetração no centro da cidade, para ver se reconquista uma parte
substancial de quadros que possam, a partir de determinado momento,
compreender, de facto, qual é a missão da UNITA no espaço angolano.
Sinto que a CASA-CE, que tem como seu líder o Abel, tirou mais membros
ao MPLA e não foi buscar à UNITA.
O Huambo e o Bié podem ser considerados bastiões da UNITA?
É
só ver, está demonstrado. Também teríamos tido no mínimo quatro
deputados no Bié, três no Huambo, dois no Kuando-Kubango, que também é
outro bastião da UNITA que temos estado a lutar para recuperarmos e
vamos conseguir mesmo com a saída de ‘Black Power’ e outras pessoas. A
UNITA tem projecto e vigor suficientes para voltar a liderar a área do
Kuando-Kubango. Temos Benguela como nosso bastião, a Huíla, onde temos
de fazer esforços em determinadas áreas para nos sentirmos à vontade, o
Kuanza-Sul, onde precisamos de melhorar. Temos umas áreas onde a UNITA
se sente bem, precisamos apenas de melhorar os nossos processos, as
nossas lideranças, capacidade dos nossos quadros para poderem levar a
mensagem e discutirmos com o MPLA na conquista destes espaços.
Nunca pensou ser presidente da UNITA, uma vez que já foi secretário- geral do partido?
A
UNITA é um partido que tem um naipe de quadros que têm perfil para
serem líderes da grande instituição. Temos companheiros como o Jardo,
que está nos Estados Unidos da América, Lukamba Gato, Jaka Jamba,
Alcides Sakala, Adalberto da Costa Júnior... Temos aqui uma vasta gama
de quadros, desde que sintam que estão em altura de solucionar os
problemas de Angola com certeza que vão ter programas para se poderem
apresentar no próximo congresso do partido. Agora, eu não posso dizer
que desta água não beberei. É possível que esteja a pensar nisso, mas
também estão aí outros companheiros.
Já ouviu das pessoas argumentos de que o senhor tem um discurso muito musculado?
Já
ouvi falar disso. Já me chamaram de incendiário, racista e de tudo. O
que eu lhe digo é o seguinte: não aceito em nenhum momento concordar com
o que se passa neste país. E o discurso musculado é dizermos a verdade.
O que temos estado a dizer é apenas a verdade. Agora, estar com a minha
gravata e a dizer querido Presidente está tudo bem, isso não faço.
Nasci como um homem livre e vou morrer como livre. Não aceito. Então
desaparecem milhões e milhões de dinheiro do país e nós estamos aqui a
dizer que está tudo bem? As pessoas não têm água. Aliás, tenho uma casa
no Kilamba e há vezes em que se passa duas semanas sem água. Como é que
as pessoas fazem um plano para uma cidade como aquela, tão bonita, e
depois não fazem plano das águas e da energia naquela área. É muita
incompetência. Se eu disser incompetente dizem que ele tem um discurso
truculento, mas não é. Só estou a falar a verdade, não estou a mentir
nada. Fui ao Mundundo, quero citar este exemplo, para ir prestar
solidariedade à morte de uma companheira Dina Chinossoke, morta só por
ser presidente da LIMA. Para um homem como eu, que vai encontrar uma
senhora morta a pedrada, que deixa filhos de colo, xuxa, que discurso é
que tenho? Digo que aqui no país está tudo bem, não há problemas. Se
disser que há intolerância... quem está a comandar é o fulano de tal.
Porque se o Presidente da República quisesse que este país estive em paz
política e social, estaríamos. Mas ele não quer. Se isto é truculência,
então que seja.
Nunca se arrependeu por ter abandonado as Forças Armadas Angolanas?
Nunca, nunca. Estou muito bem.
Quais foram as razões do seu abandono?
Fui
co-fundador das FAA com o general João de Matos. E o companheiro com
quem iniciei a formação das FAA tinha saído, não me iria subalternizar
àqueles que eram meus subalternos no ponto de vista técnico. Do ponto de
vista ético também não ficaria bem. Tenho um sentido bem firme no meu
posicionamento em relação ao respeito das instituições. Não me agarro a
poderes nenhuns e não há um que me faz andar de joelhos. Não quis ir às
FAA porque achei que não havia razões para entrar. Os meus companheiros
que entraram agora, Kamorteiro e outros eram parte de oficiais que eu
tinha levado para as FAA, fizeram comigo o primeiro estado-maior com os
outros oficiais que tinham vindo das FAPLA. De certeza que tinham
assumido situações de protagonismo e estava muito bem. Agora eu vir para
uma posição de subalternização em relação aos oficiais que tinha
comandado antes estava errado. E também não sou, não tenho muita queda
para ser militar, andar de botas até aos 50 anos. FAA é para os jovens
que lá estão e acho que o país tem de ter políticas de transição para
que os mais velhos deixem os lugares para os mais novos que vão
surgindo, agora com muito mais competência e formação.
Fala-se muito que quando abandonou as Forças Armadas deixou um filho que foi criado por um oficial general muito conhecido...
Não deixei filho nem foi criado por algum general. Isso foi maldade.
Dani Costa
fonte: opais.net