NO BALUR I STA NA NO KUNCIMENTI, PA KILA, NO BALURIZA KUNCIMENTI!...
Como é que se faz carreira na área da administração hospitalar em Portugal? Fale-me um pouco da sua história.
Fazer
esta carreira na administração hospitalar em Portugal não é fácil para
uma mulher africana, aliás, acho que sou a única africana que é
administradora hospitalar. Sou administradora hospitalar de concurso,
por curso, fiz uma formação académica, fiz uma especialização na Escola
nacional de Saúde Pública, que pertence à Universidade Nova de Lisboa.
Fui escolhida pelo professor Queiroz e Melo, que na altura era o
director do Hospital de Santa Cruz, um hospital de elite, um hospital em
que… eu achava que tinha hipóteses porque acreditava em mim, mas uma
hipótese remota porque usava umas tranças tipo africanas… o professor
Queiroz e Melo, a esposa do Dr. Lobo Antunes, Dr. Dias Costa… lá fui.
Aliás, quando concorri à administração hospitalar, várias provas… e eu
pensei: isso é tão elitista, não tenho cunhas, isto é para uma camada
social à qual eu não pertenço, porque não tinha protecção do pai nem da
mãe, nem de primo nem de ninguém, era eu e as minhas circunstâncias e
pensei: não me querem. Um dia telefonaram-me para iniciar o curso. Lá
fui.
Quando fui concorrer para o hospital Sta. Cruz fui
entrevistada. No dia seguinte o senhor Queiroz e Melo, nas escadas, diz:
quero-a cá amanhã.
Eu ainda disse que não podia, só daí a um
ano, porque ainda queria fazer um curso que me vinculasse à função
pública. E um ano depois voltei. Fiz amigos maravilhosos. Tive a sorte
de começar num hospital de elite, numa grande equipa. Ainda hoje é o meu
hospital do coração. Há dias fui lá e o pessoal lembrava-se que o
quadro esteve dezassete anos parado e fui eu que consegui com que
trabalhadores entrassem para o quadro de forma administrativa… tive a
felicidade de trabalhar com o Prof. Jacinto Simões, que fez o primeiro
transplante de coração em Portugal, o Professor Seabra Gomes… trabalhei
com a nata da saúde em Portugal. O que me deu uma confiança muito grande
e, afinal de contas, não tinha nada com o ser africana. Mas nós, sendo
africanos, sendo imigrantes, temos de ser muito, muito, mas muito
empenhados.
Então o sucesso cobra mais trabalho de um africano?
Eu
costumo dar um exemplo que é o seguinte: Portugal é um país onde não se
vê muitos africanos nos bancos, na televisão… ainda não se vê muitos
africanos em lugares de destaque, penso que existe apenas um deputado,
do CDS, africano, enfim, apesar de ter estado quinhentos anos em África,
nós, os africanos, cá, não temos protagonismo, ao contrário daquilo que
está a acontecer em Angola, em que os portugueses têm grande
protagonismo, quer na economia, quer, de forma mitigada, politicamente…
Mas perdeu também o protagonismo em Angola?
Um
dia, estava a trabalhar já no Hospital Sta. Maria, como administradora
da área materno-infantil, um dia, ao ver a televisão, com imagens de
guerra no meu país, vi, no Kuito, aquelas imagens horríveis e pensava:
eu sou uma felizarda, não estou doente, estudei, aprendi, então vou
fazer qualquer coisa. Criei uma ONGD (Organização Não Governamental para
o desenvolvimento), fiz um projecto, fui à embaixada, tive a felicidade
de encontrar os nossos irmãos receptivos, mesmo não conhecendo ninguém…
convidei o Dr. Rui Xavier, da embaixada, a conhecer o meu serviço, ele
achou piada, tudo limpo, e eu tratava as pessoas com muito carinho,
porque acho que é assim que se deve tratar as pessoas… e o meu projecto
foi enviado ao Conselho Científico da Faculdade de Medicina da
Universidade Agostinho Neto, que o aprovou. Com pessoal dos hospitais da
Estefânia, Sta. Cruz, S.
José, etc. lá fomos nós dar uma
formação na área da Medicina Transfusional, porque achava que o problema
do SIDA, das doenças ligadas ao sangue, eram problemas muito graves.
Fomos dar o nosso contributo. Na ocasião, comprei cinco cadeiras de
rodas que levei ao Bié. Falei com o governador Amaro Tati, ele achou
piada e lá fui eu.
Num encontro com uma comunidade, estava uma mulher sem as duas pernas, tinha-as perdido numa mina.
Peguei nela, sentei-a numa cadeira de rodas, e ela disse: agora já posso arranjar o meu namorado, o meu negócio…
Transformou-lhe a vida…
Transformei-lhe a vida. Fiquei felicíssima, porque foi uma coisa pequenina, mas dei o meu contributo para o meu país.
Para
a administração hospitalar é preciso uma formação específica, no nosso
país, a maioria dos dirigentes hospitalares são médicos de “produção”,
que olham mais para o doente que para a gestão. Quando se encontram pode
haver choques?
Tem de haver uma postura de inclusão. Os
médicos estão na área produtiva, eu estou na área organizativa, tem de
haver noção de que fazemos parte da mesma família, do mesmo interesse,
do mesmo projecto. Por incrível que pareça, os meus amigos na saúde são
quase todos médicos e fico muito feliz quando, como aconteceu há dias no
Sta. Cruz, encontro o director dos serviços de cirurgia que diz: a Dra.
Alexandrina foi uma brilhante administradora neste hospital . Eu não
gosto de conflitualidade. Tento envolver as pessoas nos projecto, nunca
numa forma impositiva… respeitando os mais velhos, como se faz na minha
terra… Esta filosofia de proximidade e fazendo perceber que na gestão de
um hospital todos somos importantes. Os recursos humanos, os
equipamentos, as infraestruturas, têm de ter um retorno, tal como numa
fábrica de salsichas, o produto final tem de beneficiar o cliente, neste
caso o utente, o doente. Esta perspectiva permite um olhar na
horizontal, nada de vertical, com o eu sou chefe e tal.
Eu tenho
de acarinhar os empregados de base, porque são eles que dão a sopa ao
doente, por exemplo. Eles é que mantêm o hospital limpo. E isso vai com o
pessoal administrativo, com os técnicos, etc.. É a minha forma de fazer
gestão hospitalar.
Há outros aspectos com influência clínica,
como o projecto que criei no Sta. Maria que dizia que o acompanhante é
um utente. Quando as senhoras vão ter os seus bebés, quem as acompanha
está numa ansiedade muito grande, naturalmente. Nos últimos trinta anos o
Sta. Maria recebia os acompanhantes cá fora, numa cadeira num vão de
escada. Eu inverti as coisas, os acompanhantes ficavam numa sala, bem
instalado e a mulher, quando fosse à sala de parto dizia se queria o
marido por perto ou não.
Gerir hospitais requer amor, pensar nos profissionais, pensar nos utentes, pensar no dinheiro que é do Estado…
Há
alguma ordem para se pensar primeiro no utente ou no profissional para
garantir um bom serviço? Primeiro pensa-se no utente, e todos os
profissionais são levados para esta missão, vamos todos em cadeia, cada
um dando o seu contributo para que o utente como pessoa humana seja bem
servido. A política de qualquer Estado passa por satisfazer as suas
populações e como sabemos que os recursos são escassos temos de os gerir
bem. Eu não posso comprar um equipamento muito dispendioso sem fazer as
contas para saber quantos utentes ele irá beneficiar, tal como não posso
construir infraestruturas sem ter consciência se tenho recursos humanos
para as utilizar ou aos equipamentos que lá serão colocados.
Não
se pode fazer gestão por vaidade ou modismos, o retorno tem de ser para
a comunidade, não vale a pena a minha vaidade, que vai diluir-se com o
tempo. Eu tive a sorte de ter feito um estágio na Clínica Mayo, um dos
melhores hospitais do mundo, nos Estado Unidos da América, em Rochester,
onde eu aprendi imenso, sobretudo a simplicidade dos dirigentes, nada
de eu estou cá em cima e os mortais lá em baixo… somos todos importantes
para dirigir uma clínica, quer seja em cuidados primários, quer nos
cuidados continuados, que seja num centro de saúde, que seja num
hospital, nós precisamos muito uns dos outros e, sobretudo, precisamos
do poder local.
Porque as políticas são implementadas com a
aceitação de toda a comunidade, que pode perceber que, muitas vezes,
fechar uma maternidade, por exemplo, pode ser impopular mas necessário.
‘Temos a obrigação de criar um stock de saúde’
Não é contraditório?
Isso
tem a ver com o stock de saúde, nós temos a obrigação de criar um stock
de saúde, cada vez mais saudáveis. Porque temos de ter comportamentos
saudáveis, ambientes saudáveis…
Portanto a administração hospitalar não se confina ao espaço hospital, pode ter influência no meio?
Se
eu tiver stockes de saúde baixos não adianta ter muitos hospitais,
muitas infraestruturas, adianta ter, quer a montante, quer a jusante,
condições de saneamento básico, água potável, diminuição da pobreza.
Estes são os índices de desenvolvimento humano que compõem o stock de
saúde.
E o ambiente… pesa?
E
o ambiente entra aqui de uma forma perfeitamente prioritária. Eu posso
ter muito bons hospitais, mas se a minha população não tiver água
potável não vale a pena, vou ter gente doente. Posso ter bons hospitais,
mas se tiver uma população analfabeta eu continuo na mesma. Posso ter
um muito bom hospital, mas se a população não tiver hábitos de
sanitarismo continuamos doentes. Posso ter bons hospitais, mas se tiver
lagoas a céu aberto e lá proliferar a anófeles eu continuo a gastar
dinheiro com infraestruturas mas não estou a tratar daquilo que é
essencial.
O essencial é criar condições para que as pessoas
sejam saudáveis, para que o stock de saúde seja crescente e não vá
diminuindo.
Veja que a esperança média de vida dos africanos anda
pelos cinquenta e poucos anos, os europeus já estão nos oitenta e cinco
a noventa anos. Temos uma perda de trinta anos. Temos de recuperar
estes trinta anos.
Esta diferença resolve-se agindo concretamente no ambiente, na melhoria da assistência médica, ou na medicina preventiva?
Estão
interligados, mas está muito focalizado no ambiente, porque não há
medicina preventiva com águas paradas onde prolifera o dengue, onde
prolifera a malária. Não há medicina preventiva quando temos crianças a
tomar banho em rios, em ribeiras, em fossas, em lagoas infectadas. Há
todo um processo ambiental que vai levar a condições mais saudáveis.
Depois as condições ambientais, de forma interligada, levam à saúde, à
medicina preventiva.
Quando falamos de países em desenvolvimento,
como nós, com doenças endémicas, estarmos a fazer uma aposta em
medicina muito especializada, cuidados de saúde com grande tecnologias é
salutar, mas, quanto a mim, os cuidados primários, os preventivos, são a
prioridade, ou estamos tapar o sol com a peneira. Estamos numa
verdadeira fogueira de vaidades. É muito bonito falar de medicina
nuclear, mas quando eu tenho ao lado crianças a morrer de malária porque
tenho fossas abertas, porque não tenho água potável, porque o ambiente
não é saudável. Logo, estamos a delapidar o nosso stock de saúde. Porque
todas estas doenças infecto-contagiosas, o SIDA, tuberculose, doenças
oportunistas, estão a delapidar o nosso stock de saúde colectivo. E as
sequelas irão manter-se por muitas dezenas de anos. Portanto, o
investimento tem de ser feito não a pensar que estamos a diminuir hoje,
que estamos a resolver, o que temos é de saber que estão a ficar muitas
sequelas para as gerações futuras. Mesmo controlando a transmissão
vertical do VIH, mãe para filho, mesmo assim há outras sequelas que vão
ficar.
Ainda que diminuamos a prevalência ou a incidência o
problema não está resolvido se persistir a malnutrição, se não tivermos
água potável, se continuarmos sem saneamento básico.
Vamos falar dos resíduos hospitalares, é assunto de saúde pública, administrativo, ou é para a gestão hospitalar?
É
uma questão de saúde pública mas também uma questão hospitalar e de
saúde ambiental. Tem de existir um quadro jurídico muito coeso, muito
integrado e, sobretudo para nós, africanos, que temos um continente de
risco, temos de perceber que o prioritário é salvar as nossas
comunidades, a nossa população, o nosso continente. Não podemos estar a
degladiarmo-nos à procura de protagonismo.
O problema dos
resíduos tóxicos, hospitalares, há regulamentos como os que existem na
Europa e em todo o mundo ocidental, até mesmo na Ásia meridional, há
regulamentos que têm de ser aplicados pelas unidades de saúde e aos
níveis local e global. O ambiente tem de ter uma interacção muito grande
com os outros ministérios, ou com os outros departamentos, ou com
outros sectores, o que não é muito difícil.
Independentemente das
nossas orientações ideológicas, todos nós queremos o melhor para a
nossa Pátria e se queremos o melhor para a nossa Pátria, quando as
coisas são entendidas, explicadas que o fim último é o benefício para
todos, Angola, obviamente que não devemos perder tempo e saber quem vai
liderar, quem vai ter protagonismo,
Ambiente é questão de soberania
E
digo mais: é uma questão de sobrevivência da geografia humana e política
do continente africano. O novo paradigma subsaariano passa pela
conservação do ambiente, nós não podemos tapar o sol com a peneira, nem
nos podemos enganar. As geografias humana e política da África
subsaariana estão dependentes do ambiente.
É uma questão de soberania?
É uma questão de soberania.
E
digo mais: é uma questão de sobrevivência da geografia humana e política
do continente africano. O novo paradigma subsaariano passa pela
conservação do ambiente, nós não podemos tapar o sol com a peneira, nem
nos podemos enganar.
As geografias humana e política da África subsaariana estão dependentes do ambiente.
Absolutamente prioritário, portanto?
Absolutamente prioritário. É convicção minha. A sobrevivência do nosso continente passa pelas políticas ambientais.
Porquê?

Os
Estados Unidos, que não subscreveram Kioto, têm agora numa das
prioridades do Presidente Obama o ambiente, porque o ambiente é já uma
ameaça global. O ambiente e a saúde são já bens comuns a toda a
humanidade, sem fronteiras.
Quando bens comuns são postos em
causa temos um problema global que tem de ser gerido de acordo com as
directrizes globais que se adaptam em cada um dos países, em cada uma
das regiões. Temos contextos políticos, sociais, culturais,
antropológicos muito específicos, portanto, vamos adaptar as experiências
produtivas ou profícuas de outros continentes. Em África, entendo que
isto é muito sério e ligado à nossa sobrevivência. Veja-se o que
acontece na África Oriental, com as secas, com as enchentes. Olhando
para o Sudão sabemos que a África se está a transformar na lixeira dos
países ricos, temos que ter cuidados e preservar o nosso continente, não
só das mudanças climáticas, mas também com as inclusões que estamos a
suportar dos países ricos. Se copiarmos modelos habitacionais, se
copiarmos modelos alimentares, e vejo os nossos jovens a comer muitos
hambúrgueres que depois derivam, e diabetes, obesidade, etc., tudo isso
tem a ver com questões ambientais. Temos de nos defender sensibilizando
os jovens e crianças que não temos de copiar modelos que são modelos, na
verdade, de subdesenvolvimento. Para os outros já está provado que é
mau. Porque que temos de viver como que em capoeiras? Naqueles prédios
tão altos… estamos a copiar um modelo…
Lá vamos nós gastar mais energia e viver confinados
Isso
tem a ver também com a nossa saúde mental. Há estudos específicos sobre
isso, há países a demolir arranha-céus. Nós temos a tendência de copiar
tudo o que vem do ocidente como se fossem modelos bons, isso não é sinal
de desenvolvimento. Nós queremos ser uma potência emergente e estar
entre os estados directores em África, temos de encontrar políticas que
permitam que sejamos respeitados no sistema internacional. E não seremos
respeitados a copiar o mal que os outros fizeram, seremos respeitados se
fizermos bem aquilo que os outros fizeram mal.
Então um Estado com uma política e com uma prática ambiental boas é um Estado forte?
É
um Estado forte. Kleine diz que população é poder. Se não tivermos
massa crítica somos pobres. Só temos capacidade de intervenção na
política internacional se tivermos população. Mas se temos maus índices
de desenvolvimento humano, com taxas de mortalidade infaltuil elevadas,
com muitas mortes no parto… todos os indicadores que nos envergonham,
mesmo que eles estejam a ser corrigidos, isso leva algum tempo… quem é
que nos vai querer com assento no Conselho de Segurança permanente das
Nações Unidas com esses indicadores?
Interessa termos um exército forte, a economia a crescer?
Pode
ser, mas para sermos respeitados não devemos apresentar-nos com
crianças a morrer de cólera, de diarreias, com problemas respiratórios
de fácil tratamento. São doenças antropogénicas, reversíveis, que
dependem única e simplesmente da vontade do homem. Vou citar uma endemia
circunscrita ao continente africano, a tripanossomíase, considerada uma
doença negligenciada.
Se os europeus e os americanos não têm a
doença do sono, porque irão eles fazer investimentos para tratar esta
doença? Se para eles o que interessa de África são as matériasprimas?
Nós, os africanos, temos de começar a investir na investigação para
colmatar as nossas falhas, que estão agarradas à dependência económica,
que está ligada ao conhecimento e à tecnologia, temos de começar a
lidar, nós próprios, com as epidemias que estão circunscritas ao nosso
continente.
Temos, então, o comportamento e o avanço científico como problemas, tudo uma questão de atitude?
Temos
de trabalhar para a paz, lado a lado, porque o avanço científico obriga a
recursos humanos especializados. Nós estamos numa dependência, quanto a
mim bastante psicológica, porque nós temos quadros muito bons, somos um
povo inteligente, vigoroso, que acredita, que tem um sonho… é só
preciso agarrar e dar as condições necessárias. Eu acredito no povo
angolano, podemos trabalhar, investigar e avançar. Somos um povo unido,
temos a nossa angolanidade, temos orgulho nisso, temos potencialidades e
virtudes que devemos acarinhar. Os outros não são mais que nós. Temos
de investir nas universidades, com professores angolanos, para que a
nossa cultura seja transmitida, porque continuamos a beber dos livros
escritos no Ocidente, de professores do Ocidente, então, as nossas
elites, obviamente que terão práticas do Ocidente. São evidências.
Ambiente é cultura também?
É
cultura, que deve ser transmitida desde as cadeiras da escola, nas
universidades, pelas autoridades tradicionais, pelas nossas zungueiras… é
preciso saber que com ambiente saudável a vida dura.
Fala da zungueira, mas para ela é importante encher a barriga e pensar no ambiente depois...
Se
encher a barriga de hambúrguer não está a fazer bem. Se temos tantos
produtos bons, como a mandiocas… e há a questão das culturas, do que
cultivar e comer, para as mamãs e para os bebés. O orgulho de sermos
africanos, o orgulho nos nossos produtos… quando vou à Ilha pergunto
sempre onde está a mandioca frita ou assada, para picar … os donos lá
dizem, porque nem são angolanos: nós cá não temos estas coisas! E eu
digo que deveriam ter. Se vou a Espanha tenho as tapas, em Portugal
tenho o choco frito, etc. Nos nossos restaurantes não há um kitute
angolano, que brincadeira é essa? Aparentemente é uma questão comercial,
mas não é, é uma questão ambiental de cultura, porque quando
interiorizarmos que a nossa mandioca é boa para a nossa alimentação nós
vamos cultivar mais mandioca, vamos dar mais banana aos nossos filhos, as
nossas frutas. E o próprio agricultor não se vai ver infestado com
culturas com mutações genéticas, etc. posso ser uma sonhadora, mas o meu
sonho é o sonho de todos os africanos.
O nosso continente afirmado, é a única forma de sermos respeitados.
Veja que Portugal não tem um único apresentador, ou locutor africano (negro) na televisão, não tem. São factos. E porquê?
Porque nós não temos ainda um lugar de peso no sistema mundial. Parece desfasado, mas está tudo incluído.
Porque fala de ambiente de saúde e não de saúde e ambiente?
Porque o ambiente atinge todos os sectores, e a saúde faz parte da condição saudável que irá beneficiar a nossa população.
Os
médicos queixam-se de receber as consequências de outros problemas.
Como é que eles e os gestores hospitalares podem influenciar a gestão
ambiental para não receber mais gente com malária, por exemplo, que ele
não quer?
Recebe gente com malária, explica ao doente infectado as causas.
Pode-se
até ter folhetos dentro da instituição. Basta mostrar uns slides sobre
como actua o mosquito a uma pessoa que tem malária… se perceber como é
que mosquito actua e o deixa naquele estado, de certeza que o seu
registo mental vai levá-lo a ter mais cuidado com os mosquito e com as
fontes que alimentam o vector. Se as pessoas não perceberem que elas
próprias contribuem para a sua doença não se tornam responsáveis. Essa
ligação deve ser feita dentro da unidade de saúde.
Deve-se
explicar-lhe como é que o seu comportamento influencia o seu estado de
saúde. Há uma grande ignorância sanitária, temos a obrigação de
explicar, com humildade e com amor. É a melhor forma de medicina
preventiva, esta ligação entre o funcionário de saúde, o posto de
atendimento, o doente e o ambiente.
Os postos de ambiente devem incorporar uma função pedagógica.
E o vigilante sanitário?
Isso
funcionou no outro tempo, deve haver um acompanhamento e participação
da comunidade. Nada de julgamento. As medidas não devem ser coercivas.
Deve haver medidas de coacção. Com mecanismos que levem as mulheres à
consulta, aos testes, etc. porque se o não fizer depois tem dificuldades
para marcar o parto, para ter lugar e acompanhamento, etc.
José Kaliengue, em Lisboa
fonte: opais.net