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quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

ANGOLA: E o canto do “não” o xeque dobrou.

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O ministro angolano dos Petróleos confirmou hoje que o memorando de entendimento entre a Sonangol e um xeque do Dubai para o desenvolvimento do terminal oceânico do Dande não se concretizou, mas garante que o projecto continua.

Diamantino Pedro Azevedo, que falava durante um encontro com jornalistas, confirmou que não houve entendimento com o xeque Ahmed Dalmook Al-Maktoum, do Dubai, relativamente à construção da base logística de armazenamento de produtos petrolíferos da Barra do Dande.

“O memorando de entendimento não é um contrato, é um documento de intenção que pode ser transformado num contrato, num instrumento jurídico mais forte, ou não. Neste caso, ficámos pelo memorando e, após algum tempo de trabalho, achámos que não havia condições para avançar com o projecto porque não houve entendimento”, afirmou o ministro.

Sem detalhar os motivos, Diamantino de Azevedo disse que “a outra parte tinha uma posição diferente” da parte angolana, por isso, “não houve um final feliz, o namoro não deu em casamento”.

O responsável que tutela os sectores dos Recursos Minerais e Petróleos adiantou que as autoridades angolanas estão “à procura de outras alternativas para levar esse projecto em frente”.

Segundo o presidente da Sonangol, Gaspar Martins, “o projecto não parou” e a “a relação terminou de forma amigável”, salientando que o xeque tem outros, muito outros (por enquanto) investimentos em curso em Angola.

“Fizemos os esclarecimentos necessários e estamos a fazer a continuidade do projecto. Entendemos que as condições em que se pretendia cooperar connosco não eram as mais adequadas”, justificou.

O memorando de entendimento com a petrolífera Sonangol para a construção de uma base logística de armazenamento de derivados do petróleo na Barra do Dande foi assinado a 7 de Novembro de 2019, num investimento estimado em 600 milhões de dólares (541,6 milhões de euros).

Na altura, o xeque Ahmed Dalmook Al-Maktoum salientou que “o país tem grande potencial” e manifestou a vontade de se envolver em mais projectos.

O projecto de armazenamento de produtos petrolíferos, visto como estratégico, foi iniciado em 2014 e interrompido em 2016, por força do contexto económico que o país e a empresa viviam nesse período.

A construção da infra-estrutura estava anteriormente estimada em 1.500 milhões de dólares (1.240 milhões de euros) e iria ser desenvolvida pela Atlantic Ventures, uma empresa associada a Isabel dos Santos, filha do antigo Presidente angolano José Eduardo dos Santos, que viu o contrato ser revogado em 2018 e avançou, na altura, com um processo contra o Estado angolano.

Na altura do anúncio, a calendarização apontava para que a estrutura estivesse operacional no primeiro semestre de 2022 e o início das obras estava previsto para 2020.

O Presidente João Lourenço, que como ministro do anterior Governo acompanhou e subscreveu (sem qualquer rebuço) a decisão de entregar a obra à Atlantic Ventures, anunciou, em Estrasburgo, no seu discurso no Parlamento Europeu, no dia 4 de Julho de 2018, a anulação, em Angola, de contratos bilionários, com a construção e gestão de importantes infra-estruturas públicas, como o Porto da Barra do Dande.

João Lourenço justificou a medida com o facto de esses contratos não terem respeitado os mais elementares princípios da transparência e da concorrência. Isto é, o significado de “transparente” e respeitador “da concorrência” varia consoante se é ministro ou Presidente da República.

Já na sua primeira entrevista colectiva, em Luanda, no dia 8 de Janeiro de 2018, à pergunta sobre se o modelo de adjudicação praticado para o Porto da Barra do Dande iria servir para outros tipos de obras públicas, o Presidente João Lourenço respondeu: “É evidente que não”.

“Não só para outras obras públicas, mas mesmo para o caso concreto deste projecto do Porto da Barra do Dande, vamos procurar rever todo o processo, no sentido de, enquanto é tempo, e porque o projecto não começou ainda a ser executado, corrigirmos aquilo que nos parece ferir a transparência”, disse João Lourenço.

“Um projecto da dimensão como este, que envolve biliões, com a garantia soberana do Estado, não pode ser entregue de bandeja, como se diz, a um empresário, sem submissão de concurso público”, acrescentou o Presidente da República, contrariando aquela que foi a sua posição enquanto ministro.

A posição relativa à construção do Porto da Barra do Dande foi oficializada numa informação enviada em Maio de 2018 aos investidores internacionais pelo Governo de João Lourenço.

No documento admitia-se que o Governo “pretende construir um segundo porto comercial nas proximidades de Luanda”, na Barra do Dande, com capacidade para movimentar 3,2 milhões de toneladas de carga por ano.

Contudo, como recorda a mesma informação, até então o Governo não emitiu a garantia do Estado aprovada pelo Presidente José Eduardo dos Santos, e referia que “ainda está em processo de avaliação dos aspectos técnicos do projecto”.

O actual porto de Luanda, o maior do país e construído no período colonial português em pleno centro da capital angolana, é propriedade do Estado angolano, mas a operação dos seus terminais estava entregue a oito empresas privadas.

O porto de Luanda movimentava (2017/18) aproximadamente 5,4 milhões de toneladas de carga por ano e recebeu obras de modernização de 130 milhões de dólares, concluídas em 2014. Antes disso, recordava o Governo, o porto de Luanda “estava altamente congestionado”, com um tempo médio de espera superior a 10 dias.

Foi noticiado em 29 de Setembro de 2017 que o Governo deveria emitir uma garantia de Estado de 1.500 milhões de dólares (1.300 milhões de euros) a favor da construção, por privados, do novo porto da Barra do Dande, face ao esgotamento da capacidade do porto de Luanda.

“O Governo pretende criar as condições necessárias para que a província de Luanda tenha um novo porto de dimensão nacional e internacional com capacidade de abastecimento para todo o país e que, estrategicamente, possa ser, também, um entreposto internacional de mercadores”, lê-se nesse mesmo decreto.

Refere ainda que o porto de Luanda, “de acordo com a evolução registada nos últimos anos nas operações portuárias” e face às “projecções de tráfego realizadas, não logrará, a curto prazo, satisfazer as necessidades de estiva e movimentação de cargas e descargas exigidas pelo comércio nacional e internacional”.

Para o efeito, foi definido pelo Governo (do qual, recorde-se, fazia parte João Lourenço), segundo o mesmo documento, o objectivo estratégico para instalação, na nova cidade do Dande (já na província vizinha do Bengo) do novo porto da capital, serviços associados e uma Zona Económica Especial, reservando para o efeito uma área total de 197,2 quilómetros quadrados e um perímetro de 76,4 quilómetros.

“O Governo considera a construção, a exploração e a manutenção do porto da Barra do Dande um empreendimento prioritário, de interesse nacional e público, considerando ainda que o empreendimento deve ser realizado com recurso a financiamento privado, de acordo com os princípios da eficiência da distribuição, partilha e gestão do risco pela parte que melhor o sabe gerir”, lê-se ainda no referido decreto.

Ficou ainda previsto que a concessão do futuro porto à sociedade Atlantic Ventures seria por um período de 30 anos, incluindo a tarefa de licenciamento, concepção, financiamento, projecto, desenvolvimento técnico e sua construção, “em associação com a autoridade do porto de Luanda”.

Recorde-se que o projecto do porto da Barra do Dande foi analisado e aprovado em reunião da Comissão Económica do Conselho de Ministros, em 2017, na qual esteve presente João Lourenço, então ministro da Defesa Nacional, e que não mereceu dele a mínima dúvida ou objecção.

Nota. Parte do Poema “Namoro” de Viriato da Cruz: «Mandei-lhe um cartão / Que o amigo Maninho tipografou. / ‘Por ti sofre o meu coração’. / Num canto “sim” / Noutro canto “não” / E ela o canto do “não… Dobrou.»

fonte: folha8

Líderes mundiais felicitam Biden após posse Presidente alemão afirma estar "aliviado" com a posse do democrata e adverte sobre os riscos do populismo. Governos de Reino Unido e Israel se dizem ansiosos para trabalhar com Biden. Bolsonaro usa tom amistoso em carta.

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Ao tomar posse nesta quarta-feira, Biden pediu união e prometeu restaurar relações dos EUA com aliados

Momentos após Joe Biden prestar nesta quarta-feira (20/01) o juramento como 46º presidente dos Estados Unidos, vários líderes internacionais saudaram o novo chefe de Estado americano e a vice-presidente Kamala Harris.

A chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, parabenizou Biden e Harris e disse estar ansiosa por "um novo capítulo de amizade e cooperação" entre os dois países, segundo escreveu o porta-voz da chefe de governo, Steffen Seibert, no Twitter.

O presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, disse que "hoje é um bom dia para a democracia" e expressou "alívio". "Estou aliviado que Joe Biden tomou posse como presidente hoje e está entrando na Casa Branca. Sei que esse sentimento é compartilhado por muitas pessoas na Alemanha."

"Apesar de toda a alegria que temos hoje, não devemos esquecer que o populismo seduziu a democracia mais poderosa do mundo. Devemos nos opor resolutamente à polarização, proteger e fortalecer o espaço público de nossas democracias e moldar a política com base na razão e nos fatos", completou Steinmeier.

"Esperamos ter os EUA novamente ao nosso lado no futuro como um parceiro indispensável em muitas questões: na luta conjunta e solidária contra a pandemia de covid-19, na proteção climática global, em questões de segurança, incluindo controle de armas e desarmamento, e em muitos conflitos urgentes no mundo."

Já o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, declarou: "Rituais como a posse de hoje mostram que as instituições democráticas nos EUA funcionam – apesar das dificuldades dos últimos dias e da polarização na sociedade americana." 

Em seu discurso nesta quarta-feira, Biden mencionou que pretende colocar os EUA novamente no caminho do multilateralismo, após quatro anos de política isolacionista promovida por seu antecessor, Donald Trump. "Vamos restaurar nossas alianças e nos reunir com o mundo novamente, não para enfrentar os desafios de ontem, mas os de hoje e de amanhã", disse o novo presidente.

Macron celebra volta ao Acordo de Paris

O presidente da França, Emmanuel Macron, também se manifestou. "Muitas felicidades neste dia tão significativo para o povo americano! Estamos juntos", afirmou, em mensagem a Biden e Kamala Harris.

Macron ainda saudou o plano já anunciado de Biden de retornar ao Acordo Climático de Paris, após Trump ter determinado a saída em 2017. "Estaremos mais fortes para enfrentar os desafios do nosso tempo. Mais fortes para construir nosso futuro. Mais fortes para proteger nosso planeta. Bem-vindo de volta ao Acordo de Paris!", escreveu no Twitter o presidente francês.

Um dos primeiros líderes a felicitar Biden foi o primeiro-ministro da Irlanda, Micheál Martin, que se referiu ao novo presidente dos EUA como um "verdadeiro amigo" do país, lembrando as raízes irlandesas do político democrata.

"Ao fazer o juramento, sei que o presidente Biden sentirá o peso da história, a presença dos seus ancestrais irlandeses que deixaram Mayo e Louth em tempos de fome em busca de vida e de esperança", disse Martin, afirmando ainda que pretende "aprofundar a cooperação" entre os dois países.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, também felicitou Biden e a vice-presidente Kamala Harris, declarando estar "ansioso para trabalhar" com o novo chefe de Estado americano.

"Parabéns a Joe Biden por ter tomado posse como presidente dos Estados Unidos e a Kamala Harris [a primeira mulher no cargo] pela sua posse histórica. A liderança americana é vital em questões que preocupam a todos, desde as mudanças climáticas até a covid-19, e estou ansioso para trabalhar com o presidente Biden", escreveu o britânico no Twitter.

Reação de Israel e Irã

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, também felicitou o novo presidente e aproveitou para tentar convencer o democrata a abraçar a política externa do governo israelense.

"Estou ansioso para trabalhar com vocês para fortalecer a aliança EUA-Israel, para continuar a expandir a paz entre Israel e o mundo árabe e para enfrentar os desafios mútuos, começando pela ameaça representada pelo Irã", afirmou o primeiro-ministro num vídeo publicado momentos depois de Biden assumir o cargo.

O Irã também reagiu à posse. Embora o país não tenha parabenizado o democrata, o governo fundamentalista de Teerã manifestou que espera que o governo americano volte ao acordo nuclear de 2015, que foi abandonado pelo agora ex-presidente Donald Trump.

"A bola está na quadra dos EUA agora. Se Washington voltar ao acordo nuclear de 2015 com o Irã, também respeitaremos totalmente nossos compromissos sob o pacto", afirmou o presidente iraniano, Hassan Rouhani, em uma reunião de gabinete transmitida pela televisão.

"Hoje, esperamos que a próxima administração dos EUA retorne ao Estado de direito e se comprometa e, se puder, nos próximos quatro anos, remova todas as manchas dos quatro anos anteriores", disse ele.

Também a Rússia declarou que espera trabalhar "de forma mais construtiva" com a nova administração americana liderada por Biden, especialmente na prorrogação do tratado de desarmamento nuclear New START, que expira em 5 de fevereiro. "Esperamos que a nova administração americana mostre uma posição mais construtiva no diálogo conosco", indicou a diplomacia russa num comunicado.

"Grande dia para a democracia"

O chefe de governo da Itália, Giuseppe Conte, também se juntou às felicitações a Joe Biden e Kamala Harris, afirmando que esta quarta-feira é "um grande dia para a democracia". Já o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, ofereceu apoio à nova administração americana.

O papa Francisco dirigiu igualmente algumas palavras ao novo presidente americano, encorajando Biden a promover a "reconciliação e a paz" nos Estados Unidos e entre as nações do mundo, com o objetivo de "promover o bem comum universal". Biden é o segundo presidente católico da história dos EUA.

Bolsonaro se manifesta após Maia e Alcolumbre publicarem felicitações

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, publicou uma mensagem de felicitações horas depois de os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP), respectivamente, terem parabenizado Biden. Em uma carta de três páginas reproduzida no Twitter, Bolsonaro expôs sua "visão de um excelente futuro para a parceria Brasil-EUA".

Em tom moderado, em contraste com suas declarações anteriores hostis ao democrata, Bolsonaro listou uma série de pontos em que o Brasil e os EUA podem buscar cooperação. "É minha convicção que, juntos, temos todas as condições para seguir aprofundando nossos vínculos e agenda de trabalho, em favor da prosperidade e do bem-estar de nossas nações", diz a carta assinada por Bolsonaro.

"Ao desejar a Vossa Excelência pleno êxito no exercício de seu mandato, peço que aceite, Senhor Presidente, os votos de minha mais alta estima e consideração", finaliza o documento.

O tom do documento também contrasta com as atitudes de Bolsonaro nos últimos meses. Após o anúncio da vitória de Biden, em novembro, o brasileiro deixou claro que não ficou contente com o resultado e a consequente derrota do seu ídolo e aliado Donald Trump. Bolsonaro demorou mais de um mês para reconhecer a vitória de Biden e chegou a endossar as acusações infundadas de Trump de que o pleito havia sido fraudado.

O ministro das Relações Exteriores brasileiro, Ernesto Araújo, outro fã de Trump, também não escondeu sua insatisfação com a vitória democrata. Nos últimos dias, ele tem usado o Twitter para reclamar da exclusão do ex-presidente republicano de várias redes sociais.

Mais cedo, o vice-presidente, Hamilton Mourão, mencionou a posse, mas se limitou a falar de sua expectativa sobre as futuras relações entre EUA e Brasil. "A relação Brasil-EUA é uma relação que vem desde a nossa independência, é uma relação de Estado para Estado e, desta maneira, ela vai continuar. É um parceiro comercial importante, é um parceiro tecnológico importante. E sempre colocando que os Estados Unidos, o modelo democrático americano, é um farol para o mundo ocidental e, desta forma, ela vai prosseguir", afirmou o vice.

Os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP), respectivamente, haviam parabenizado Biden e a vice Kamala Harris de maneira mais direta, antes da manifestação de Bolsonaro. "Que as duas nações atuem em conjunto em favor do fortalecimento da democracia, do combate ao radicalismo e da proteção do meio ambiente", escreveu Maia no Twitter

 

"Que os nossos países possam manter abertos os canais do diálogo e do entendimento, sempre buscando o equilíbrio", escreveu Alcolumbre.

JPS/lusa/ots

Quanto custou o "blackout digital" durante as eleições no Uganda?

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O bloqueio do acesso à Internet durante as eleições causou prejuízos à economia diária dos cidadãos. As autoridades pediram desculpas pelo incómodo e disseram que o encerramento evitou interferências externas no pleito.


Quando o Uganda ordenou o encerramento da Internet na véspera das eleições presidenciais, o comércio de amendoins de Susan Tafumba foi duramente afetado.

A jovem de 34 anos vende amendoins no mercado Nakawa de Kampala, mas grande parte do seu negócio vem agora através de uma aplicação de telemóvel que os clientes utilizam para encomendar bens que lhes são entregues por táxis de motociclos.

"Normalmente a aplicação dá-nos mais lucro do que aquelas pessoas que chegam diariamente ao mercado, mas perdemos clientes", disse Tafumba, uma das inúmeras comerciantes cuja subsistência está cada vez mais dependente da tecnologia.

"Estamos a trabalhar normalmente depois de a Internet ter voltado. Estou à espera de as encomendas voltarem a chegar", disse, acrescentando que perdeu cerca de 300 mil xelins ugandeses – o equivalente a 67 euros.

Social Media-Nutzung in Afrika

Internet sofreu bloqueio durante o período eleitoral

Desculpas pelo "incómodo"

A nação da África Oriental levantou o "blackout" na segunda-feira (18.01), mais de 100 horas depois de o ter imposto às vésperas das eleições de 14 de janeiro.

As autoridades pediram desculpas pelo incómodo e disseram que o encerramento era para evitar interferências externas nas eleições. O veterano líder Yoweri Museveni foi declarado vencedor na disputa contra o oposicionista Bobi Wine, uma estrela da música pop que enveredou pela política .

Os defensores dos direitos digitais disseram que o bloqueio deixou os cidadãos incapazes de pagar contas, enviar dinheiro à família e de se deslocar.

"O encerramento significava negar às pessoas o acesso a fontes de subsistência", disse Felicia Anthonio, ativista do #KeepItOn, um movimento global que luta contra o encerramento da Internet.

Uganda Wahlen l Streetart gegen Gewalt in Kampala

Escrutínio foi marcado por violência

"As empresas do sector formal e informal, educação, saúde, meios de comunicação social, grupos da sociedade civil, e muitos outros, que dependem cada vez mais da Internet e das plataformas digitais para manterem as suas atividades, sofreram um enorme impacto", disse.

A Internet Freedom Monitor Netblocks calcula que o encerramento de quase cinco dias custou à economia ugandesa o equivalente a 7,5 mil milhões de euros. Isto inclui transações de dinheiro móvel - das quais muitos ugandeses dependem para pagamentos - bem como comércio eletrónico, reservas de companhias aéreas e serviços de táxi baseados em aplicações.

A Financial Technology and Service Providers Association estima que as empresas do sector perderam pelo menos 66 mil milhões de xelins ugandeses (mais de 14 milhões de euros) diariamente durante o encerramento.

Uganda Bobi Wine

Bobi Wine reclama de fraude

"Fraude generalizada"

O opositor Bobi Wine, que se encontra em detenção domiciliária, alega fraude generalizada nas eleições e diz que o desligamento em massa da Internet significou que não pôde comunicar com os seus observadores nas mesas de voto e partilhar provas de violações eleitorais.

Os defensores dos direitos digitais afirmaram que o "blackout" da Internet foi uma tentativa deliberada do Governo de manter os cidadãos e o resto do mundo no escuro durante os períodos eleitorais – que tiveram registo de repressão de oposicionistas, meios de comunicação e sociedade civil.

Embora esta seja a primeira vez que o Uganda bloqueou a Internet, outras formas de restrições em não são invulgares, segundo ativistas. Segundo I Data Reportal, havia mais de dez milhões de usuários da Internet no Uganda em 2020, o equivalente a 24% da população.

O Governo proibiu os meios de comunicação social e as transferências de dinheiro em 2016 e SMS foram bloqueados nas eleições de 2011. Em 2006, autoridades também bloquearam sítios críticos ao governo.

fonte: DW África




Angola: Enfermeiros denunciam cotidiano de agressões e condições precárias de trabalho.

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Enfermeiros revelam que falta de recursos médicos causa conflitos com familiares de pacientes. Classe faz lista de reivindicações para discutir com o governo e ameaça greve em fevereiro: "Somos os mais desvalorizados".


Secretário-geral do Sindicato dos Enfermeiros, Afonso Kileba

Ana Neto é enfermeira há 16 anos. Atualmente está colocada num Centro Materno infantil localizado no bairro Catinton, uma área na capital angolana onde vivem várias famílias carentes.

No seu local de trabalho, não há medicamentos para prestar assistência aos pacientes. Neto diz que enfermeiros chegam a comprar medicamentos para dar aos doentes.

'Às vezes quando falta dipirona, mobilizamo-nos entre colegas para uma contribuição. Sacudimos as pastas e tiramos  100 ou 200 kwanzas para ajudar o paciente".

Enfermeiros da província de Luanda dizem que trabalham em péssimas condições, principalmente nos hospitais estatais. No ambiente de trabalho, convive-se com a escassez. Segundo os profissionais, falta medicamentos e até água nos centros de saúde da província de Luanda.

Angola Arbeitsbedingungen von Krankenpflegern

Hospital Josina Machel é um dos mais importantes do país

Frustração e baixos salários

A falta de condições de trabalho não é a única preocupação dos enfermeiros. Os baixos salários e assistência médica também inquietam estes profissionais. Uma profissional que se identificou para a DW África como Maria diz que perdeu a paixão pela profissão que exerce há 18 anos devido à falta de valorização de quadros.

Maria diz que não aconselharia a própria filha a fazer o curso de saúde: "Isso é desgraça”. A enfermeira diz que se trata de uma profissão de amor e humanidade, mas não considera isso suficiente.

"Para tratarmos da nossa saúde, temos que girar. Mesmo no nosso hospital temos que pedir favor aos nossos colegas médicos. O meu salário não chega para fazer uma boa consulta num cardiologista. Não temos seguro de saúde. Você tem que andar atrás do médico para ele lhe atender", desabafou.

O que exigem os enfermeiros

Esta quarta-feira (20.01), o Sindicato dos Técnicos de Enfermagem de Luanda reuniu os associados para analisar a situação da classe. Os profissionais ameaçam realizar greve em fevereiro se o Governo não atender os 16 pontos do caderno de reivindicações.

Angola Arbeitsbedingungen von Krankenpflegern

Assembleia de enfermeiros para discutir a situação da classe

Entre os itens exigidos destaca-se a implementação dos subsídios de horas extras, o regulamento da carreira de enfermagem, a criação de condições para assistência médica e medicamentosa dos profissionais de enfermagem e dos seus familiares e reabastecimento regular de fármacos, materiais gastáveis e de biossegurança em todas as unidades sanitárias da capital angolana.

Os enfermeiros exigem a realização de concurso público interno ou uma readequação da categoria à demanda do sistema, além do cumprimento obrigatório de 36 horas semanais e não 44 horas com está a ocorrer. Em declarações à DW, o secretário-geral do sindicato, Afonso Kileba, disse que se a entidade patronal não atender as preocupações será convocada greve para o dia 15 de fevereiro.

"A vontade da maioria não é a greve. A vontade da maioria é que os problemas sejam resolvidos para beneficiar os próprios profissionais e a população. É inadmissível eu estar diante de um paciente, que sei que posso fazer algo para salvar a vida dele, e por falta de um bem que essa unidade  pode oferecer-me para atender o paciente, a pessoa acaba de sucumbir na minha frente",  afirma Kileba.

O Governo diz que há medicamentos e materiais gastáveis nos hospitais. Mas, quando os utentes se dirigem às unidades, não encontram luvas, seringas nem ligaduras. A escassez resulta em agressões físicas contra os técnicos de saúde, segundo Afonso Kileba. "Não estou na  superestrutura, estou na base para atender os pacientes. Eu vivo essa realidade e não é uma realidade contada por terceiros. Eu vivo isso  porque sou um dos alvos destas agressões" frisa o sindicalista.

fonte: DW África



segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

ANGOLA: A (a)MPLA amargura de Irene Neto

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O filho do empresário luso-angolano Carlos São Vicente, Ivo São Vicente, foi agora constituído arguido, revelou a sua mãe, Irene Neto (filha do herói do MPLA, Agostinho Neto). O “massacre” continua, diz Irene a partir da capital colonial (Lisboa) de outros tempos.

“Penso que não é necessário estar a afirmar certas coisas, quando nós estamos numa posição em que temos o marido preso e temos um filho constituído arguido”, afirmou numa entrevista à Lusa, em Lisboa, a filha do primeiro Presidente de Angola, herói do MPLA e “pai” dos massacres de 27 de Maio de 1977, Agostinho Neto, e esposa do empresário Carlos São Vicente.

Segundo Irene Neto, da notificação que Ivo São Vicente recebeu não se percebe porque foi constituído arguido, o que é normal no sistema de “justiça” “made in MPLA”. “Não sei, mandaram uma notificação a dizer para apresentar-se [em Angola], porque foi constituído arguido. A data [da carta] acho que é de 30 ou 31 de Dezembro, mas só nos chegou agora”, sublinhou.

Porém, garantiu que o filho, a viver em Lisboa já há algum tempo, não se irá apresentar à justiça angolana, “a não ser que o venham buscar”, afirmou a médica angolana, nascida em Portugal, e que desde Julho último também vive em território português. Embora sendo o reino do MPLA um paraíso, o melhor mesmo é viver no “inferno” que é a antiga potência colonial, usando para isso o direito de terem nascido (ou serem familiares de quem nasceu) num território então considerado português.

A notificação para Ivo São Vicente “é muito lacónica, apenas diz que ele tem de se apresentar no dia seguinte a ter recebido a carta. Obviamente, que não dava para se apresentar em Luanda. Até porque nós não temos meios para pagar bilhete de passagem para Angola e, muito menos, local onde residir [no país]. Porque a nossa habitação também foi apreendida [pela justiça angolana]. Portanto, nós não temos para onde voltar. Praticamente somos exilados em Portugal”, explicou.

Irene Neto admite duas hipóteses na origem da notificação do filho. Uma delas é o facto de este ser gestor de empresas do pai ou que integravam o grupo por ele criado. A outra, para si mais plausível, tem a ver com o facto de Ivo São Vicente “ter estado a dar entrevistas”.

“Como um jovem que é, defende o pai com alguma veemência e poderá ter dito algo que não tenha sido muito bem aceite. Portanto, isto pode ser considerado como uma forma de represália, de pressão sobre o pai, que está lá preso e fica sabendo que o filho foi constituído arguido”, afirmou.

No entanto, e apesar da colaboração judicial entre Angola e Portugal, Irene Neto não receia que o filho possa vir a ser detido em Lisboa. Mas, “nestas circunstâncias, ficamos um bocado reféns do que possa ser exercido como meio de pressão daqui para frente”, frisou. E frisou bem. É que, como se sabe, por regra os governos portugueses fazem tudo o que o MPLA quer, numa atitude bajulação constantemente alimentada. Recorde-se que o Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, felicitou João Lourenço pela sua vitória nas últimas “eleições”, mesmo antes de os resultados oficiais terem sido divulgados.

Para já, em Portugal, a família de Carlos São Vicente tem algumas das contas congeladas pela justiça, apesar do recurso que interpôs no ano passado para que fosse levantada a medida.

“Estamos insistindo”, sublinhou. Porque já houve uma resposta ao recurso, a instrução do juiz “foi no sentido de descongelar as contas de voltar a abrir, algumas delas”, não todas, só que o banco não cumpriu. E o banco não cumpriu porque a sua decisão está dependente das ordens superiores do… MPLA.

Por isso, “nós temos que resolver a situação”, afirmou, porque o dinheiro é necessário, não só para a família, mas também para Ivo São Vicente manter as empresas que tem em Portugal.

Segundo o despacho que determinou a prisão preventiva do empresário Carlos São Vicente, este teria levado a cabo “um esquema ilegal” que lesou a petrolífera do regime/MPLA, a Sonangol, em mais de 900 milhões de dólares (cerca de 763,6 milhões de euros).

De acordo com o despacho, o empresário angolano, que entre 2000 a 2016 desempenhou, em simultâneo, as funções de director de gestão de riscos da Sonangol e de presidente do conselho de administração da companhia AAA Seguros, sociedade em que a petrolífera angolana era inicialmente única accionista, terá levado a cabo naquele período “um esquema de apropriação ilegal de participações sociais” da seguradora e de “rendimento e lucros produzidos pelo sistema” de seguros e resseguros no sector petrolífero em Angola, graças ao monopólio da companhia.

O ano passado, Irene Neto afirmou-se vítima de um “massacre judicial e mediático” e apelou à libertação do marido, que disse estar “preso injustamente”.

Em comunicado, Irene Neto lamentou a falta de solidariedade dos camaradas de partido, sobretudo – calculamos – daqueles que ajudaram o seu pai a massacrar milhares e milhares de angolanos do genocídio de 27 de Maio de 1977, e afirma estar actualmente sem meios para pagar as suas despesas quotidianas, depois de ver as suas contas congeladas.

Em relação ao marido, detido por suspeita dos crimes de peculato, branqueamento de capitais e tráfico de influências (acusações estranhas já que, até agora, só envolveram figuras do… MPLA), afirma ser “um cidadão honrado e cumpridor das leis angolanas” que está preso apenas por ter tido “sucesso”.

Irene Neto tem razão. Carlos São Vicente “cumpriu as leis angolanas”. Tal como Isabel dos Santos e todos os dirigentes do MPLA que se limitarem a fazer o que a lei do partido permitia, até porque está no seu ADN. Ou seja, roubar o erário público, fazendo da corrupção a mais nobre qualidade de um partido revolucionário.

Irene Neto acusa as autoridades (do MPLA) de alimentarem “um circo mediático” contra a sua família e diz que o marido é vítima de um julgamento “criado artificialmente e alimentado por sectores bem identificados”… do MPLA.

Estamos em crer que, nesta altura, Irene Neto (tal como a Fundação Agostinho Neto) já terá apresentado mais uma queixa à Entidade Reguladora da Comunicação Social Angolana (ERCA) contra o Folha 8, acusando-nos de liderarmos o “massacre mediático” contra o clã Neto.

No episódio anterior, que agora pode ser reeditado quase “ipsis verbis”, o Folha 8 foi alvo de uma queixa da Fundação Agostinho Neto junto da ERCA por alegadamente instigar “o ódio incendiário” e ofender o primeiro presidente de Angola, António Agostinho Neto, tendo o regulador considerado que as nossas práticas editoriais atentam contra “a honra e dignidade dos obreiros da independência nacional, nomeadamente do Presidente – fundador da República de Angola António Agostinho Neto”.

Em causa, na deliberação do Conselho Directivo da ERCA do MPLA, estava a “ocorrência de alguns factos susceptíveis de esclarecimentos como a comparação do antigo Presidente a personalidades consideradas defensoras da escravatura, feita pelo Folha 8”.

O alegado artigo do Folha 8 onde Agostinho Neto teria sido apontado como escravocrata, não passou de um post (publicação) no Facebook publicado no dia 17 de Junho de 2020 em que não é feita qualquer referência directa a Agostinho Neto.

O ‘post’ diz que “vários países estão a retirar dos espaços públicos as estátuas de assassinos, ditadores e defensores da escravatura. Em Angola está a demorar para que isso aconteça” e foi publicado ao lado de uma foto com um busto do primeiro presidente onde se lê “Assassino Agostinho Neto”, tendo uma grua como pano de fundo.

Na queixa, a Fundação alega que “há mais de 30 anos” o Folha 8 acusa, sem provas, Agostinho Neto de criminoso, ditador e assassino, pretendendo “impor a sua narrativa tirana, desrespeitando a figura do primeiro Chefe de Estado e violando a lei aplicável sem qualquer reacção da ERCA nem do Governo”. Por aqui se vê como o clã Neto está dotado de poderes divinatórios. Repare-se que, apesar de só termos (quase) 26 anos de existência, “há mais de 30 anos” que acusamos Agostinho Neto. É obra!

“O Folha 8, com rigor, não faz jornalismo e, por esse facto, urge aplica a lei e ser imediatamente encerrado”, pediu a Fundação na queixa dirigida à ERCA e assinada pela presidente do Conselho de Administração, Irene Alexandra Neto, filha do ex-presidente falecido em 1979.

“Não vamos perder tempo com julgamentos”, disse nos seus tempos áureos o pai de Irene Neto. “É legitimo que a Fundação defenda o seu patrono e que o MPLA defenda o seu presidente, mas é também legítimo que as pessoas que não se revêm em Agostinho Neto assumam que não lhe reconhecem os valores humanistas de grande libertador e combatente da liberdade”. É igualmente legítimo que Irene defenda o seu marido, pai e filho e que tente, segundo as suas palavras, evitar que lhe façam o que o seu pai fez a milhares e milhares de angolanos – o massacrem.

Por sua vez, das três “acusações” que supostamente o Folha 8 fez ao sogro de Carlos São Vicente (assassinos, ditadores e defensores da escravatura) o Bureau Político do MPLA só contesta a terceira. Assim, dá como provadas e inquestionáveis as duas primeiras: Assassino e ditador. Finalmente.

Folha 8 com Lusa


África sofrerá efeitos da retração do financiamento externo chinês.

NO BALUR I STA NA NO KUNCIMENTI, PA KILA, NO BALURIZA KUNCIMENTI!...

Dois principais bancos de fomento chineses diminuem o financiamento de projetos no exterior em mais de 90%. Analistas veem que África também sentirá os efeitos da "nova disciplina" de liberação de recursos da China.




Foram décadas de empréstimos extravagantes. Mas agora os credores chineses estão a recuar nos investimentos.

É o que revela um estudo do Centro Global de Políticas de Desenvolvimento da Universidade de Boston, que aponta para uma queda acentuada dos empréstimos estrangeiros de dois grandes bancos de desenvolvimento chineses – o Banco de Exportação e Importação da China (EXIM) e o Banco de Desenvolvimento da China (CDB).

Os dados indicam declínio de o equivalente a 61 mil milhões de euros em 2016 para pouco mais 4 mil milhões de euros em 2019 - uma considerável retração de quase 94% em três anos.

Yan Wang, investigadora da Universidade de Boston - que trabalhou no Banco Mundial como economista ao longo de duas décadas - destaca que houve imposição de maior disciplina ao financiamento de projetos no exterior.

Wang explica que, em 2016, havia crédito excessivo e todas as instituições financeiras estavam a emprestar exageradamente. O EXIM e o CDB eram suspeitos de empréstimo excessivo ao longo dos anos e depois, a partir de 2017, houve um esforço para reverter este quadro.

"Os reguladores financeiros endureceram as normas, os dois bancos enfrentaram auditorias, painéis de inspeção, ações regulatórias e mais tarde até ações anticorrupção", lembra a investigadora.

O EXIM e o CDB estão sob a alçada do conselho de Estado chinês e são responsáveis por grande parte dos empréstimos para o desenvolvimento externo.

Kenia Gauge Railway (SGR) Eröffnung Uhuru Kenyatta

Presidente Uhuru Kenyatta inaugura no Quénia trecho de caminhos de ferro financiado pela China

Fluxo financeiro para África

Dados da Universidade de Boston apontam que só entre 2008 e 2019, as duas instituições concederam o equivalente a 380 mil milhões de euros em empréstimos ao exterior - um número próximo do valor dispensado pelo Banco Mundial durante o mesmo período (384 mil milhões).

No continente africano, os empréstimos ultrapassaram o equivalente a 82 mil milhões de euros. Também aqui o recuo é palpável, confirma Martyn Davies, especialista em mercados emergentes e África da consultora Deloitte, em Joanesburgo.

Davies ressalta que foram implementadas diferentes medidas e que tem havido um olhar mais microscópico para muitos projetos - uma metodologia que pode não estar a ser exposta para a opinião pública.

"Estes não são números oficiais, não vamos ouvir estes números por parte do Banco EXIM ou do Banco de Desenvolvimento chinês. Não diria que são precisos, mas indicam uma tendência", salienta.

Tansania Dar Es Salaam Kigamboni Brücke Baustelle

Ponte construída na Tanzânia por grupo de engenharia chinês

Aversão ao risco

Já Hannah Ryder, economista britânico-queniana a trabalhar em Pequim, é mais cautelosa. A diretora executiva da Development Reimagined realça que são poucos os que têm acesso aos dados oficiais. E avalia uma queda do crédito chinês em África bem menor da traçada pela Universidade de Boston.

Para Ryder, parece haver uma crescente aversão ao risco por parte de alguns bancos, que estão a avaliar se deveriam estar a emprestar tanto dinheiro a estes países que poderão estar a pedir muito crédito.

"O que eu não observei foi uma grande mudança na política doméstica no que diz respeito ao investimento chinês no estrangeiro. Por exemplo, há muitos incentivos ao nível provincial para as empresas irem para o exterior", pondera a economista.

Num ponto, os economistas estão de acordo: 2020 foi um ano excecional. A crise da Covid-19 está a fragilizar as economias africanas. Os governos estão sob pressão para continuarem a pagar o que devem, mas saldar as contas implica em menos recursos para as exigências da crise sanitária.

Mosambik Maputo Flughafen

Novo terminal doméstico do aeroporto de Maputo contou com financiamento da China

Wang, do Centro Global de Políticas de Desenvolvimento, explica que a pandemia acelerou os pedidos de perdão da dívida. O alívio destas obrigações tem estado a ser negociado entre Pequim e vários estados africanos.

"O lado chinês tem de levar em consideração os novos riscos do incumprimento da dívida. Por isso, é natural que a concessão de empréstimos continue a abrandar, dependendo da sustentabilidade da dívida de cada país, se ele se encontra em sobre-endividamento ou não", explica

Outra análise que tem de ser feita, mas do lado africano, diz Martyn Davies, é sobre a viabilidade dos projetos apoiados pela China, porque alguns "são autênticos elefantes brancos".

Para Davies, a ideia de que o dinheiro da China é gratuito em certos casos e que não procura retorno financeiro é uma interpretação ingénua. "Espero que esses mitos se dissipem definitivamente", afirma.

Critérios ambientais

Dos projeots analisados no estudo da Universidade de Boston, cerca de uma centena está localizada em áreas protegidas, mais de 100 em zonas povoadas por comunidades indígenas e cerca de 200 em habitats críticos.

A diretora-executiva da Development Reimagineddefende que o financiamento para o desenvolvimento deve ser mais sustentável. Hannah Ryder admite que a decisão não está apenas nas mãos da China, até porque Pequim defende o princípio da não-interferência nos assuntos externos.

"Se um governo não tem sensibilidades ambientais onde estão a ser estabelecidos projetos, a visão da China é não vos vamos impor os nossos padrões", lembra Ryder.

fonte: DW África



quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

ANGOLA: Traição das classes cultas angolanas.

NO BALUR I STA NA NO KUNCIMENTI, PA KILA, NO BALURIZA KUNCIMENTI!...


Nos nossos dias o que se observa em Angola é uma sociedade dividida entre vencedores e vencidos, amedrontada e assassinada por um Partido capitaneado por homens sem um pingo de escrúpulos.

Por Carlos Pacheco
Historiador angolano (*)

Não é minha intenção fazer aqui um julgamento. Habituado a estudar fenómenos históricos e a tentar perceber as dinâmicas de evolução das sociedades e o comportamento dos homens em grupo, somente me move o propósito de nesta reflexão deixar registada uma constatação: a inteligência angolana (simbolizada pelas suas camadas pensantes) já não é a mesma de há uns tempos a esta parte. Transmutou-se, perdeu densidade, é menos profunda, tornou-se imobilista, deixou-se aprisionar pelos tentáculos do poder político.

A minha constatação, confesso, é algo parecida com a de Max Aub, escritor espanhol (1903-1972), que no seu Diário Espanhol (escrito anos depois de se exilar no México fugido da ditadura de Franco) se perguntava estupefacto acerca de Espanha: “Vejo moinhos ou vejo gigantes?”.

Tinha razão o autor do Labirinto Mágico para tanto estranhamento. Que país era aquele (revisitado por ele em 1969) com o qual já não se identificava? Que transformações se haviam operado na índole dos espanhóis, dos seus escritores, pensadores e demais artesãos da palavra, de tal maneira que já não se falava nem se escrevia tão bem como dantes? Onde estava a poderosa energia dos seus intelectuais, do porte de um Benito Pérez Galdós (em cujos livros várias gerações de espanhóis tinham aprendido a ler); de um Miguel de Unamuno, de um António Machado, de um Juan Rámon Jiménez e tantos outros? Teriam sido as mordaças da ditadura franquista e da Igreja Católica as responsáveis pelo elanguescer da alma espanhola, pondo as suas gentes a falar uma “língua anémica”? Teriam sido essas mordaças que feriram os espanhóis no âmago da sua rebeldia e fulgor de pensamento? Para o escritor não havia qualquer dúvida quanto às causas desta degenerescência cultural. “Não há camaleão que mude de cor assim tão depressa”, exclamava Aub, tomado por sentimentos de pesadume[i].

As minhas interrogações a respeito de Angola vão na mesma direcção do escritor espanhol. Que aconteceu às camadas pensantes nativas e às suas inclinações primordiais de combate humanístico em prol de uma sociedade política e socialmente mais justa, mais solidária e preocupada com as profundas mazelas do seu povo, hoje a viver nos estreitos limites da sobrevivência? Que aconteceu ao certo, de desastroso, para se ver esta classe perdida de si mesma, despersonalizada?

Nos nossos dias o que se observa em Angola é uma sociedade dividida entre vencedores e vencidos, amedrontada e assassinada por um Partido capitaneado por homens sem um pingo de escrúpulos. Apenas empanturrados de dinheiro e conforto enquanto as brechas que separam os grupos sociais entre si aumentam vertiginosamente. Uma sociedade triste, ancilosada, amarfanhada pela ditadura e sem capacidade de reacção. As ideias políticas rarefazem-se no vácuo e em poeiras de informações dispersas e obscuras, sem nenhum outro sentido que não sejam palavras de ordem. Basta ler os periódicos e o que se vai editando. Um deserto total de ideias, textos sem importância, em geral paupérrimos no seu conteúdo. Entretanto, a vida em sociedade flui sem percalços e a contestação política episódica, quando se dá, logo morre nas praias do torpor e da resignação. O que predomina é o espasmo da indiferença e esta, como dizia o filósofo marxista Antonio Gramsci, “opera com força na história”. É a “matéria bruta” diante da qual a inteligência claudica[ii].

Faz tempo que as elites culturais angolanas soçobraram na indiferença. Apoderou-se delas uma espécie de cegueira para com a realidade que as cerca. Imersas em paixões partidárias e despojadas de motivações éticas, esta classe desvinculou-se de compromissos com as grandes causas. Desvinculou-se dos avanços sociais da democracia e da justiça; desvinculou-se do compromisso de lutar pela descolonização das mentes, de lutar pela construção de uma consciência colectiva e por uma sociedade mais humana e eticamente responsável. Mas, acima de tudo, desvinculou-se de ajudar a edificar uma sociedade mais harmónica e progressista e, como tal, insuflada por valores virtuosos e não pela depravada ganância material introduzida em Angola pelas apodrecidas castas oligárquicas do MPLA.

Ao voltarem costas a estes árduos desafios, jornalistas, literatos, académicos e estudiosos em geral enrouparam-se com as insígnias do cinismo e submeteram-se aos interesses do Partido-Estado e aos seus condicionamentos. Iguais a um enxame de moscas, tais elites gravitam em volta do Poder e como serviçais emprestam o seu silêncio aos poderosos e efabulam a realidade com os seus escritos. Numa palavra, enquistaram-se no papel de cúmplices das políticas de esquecimento e impunidade, desde sempre dois traços dominantes e persistentes nos governos do MPLA. Um recuo civilizacional esta cedência, se nos lembrarmos que tanto o esquecimento como a impunidade são responsáveis pela continuação dos ciclos de violência.

A este gesto de abdicação da verdade, chama o poeta espanhol Rafael Sánchez Ferlosio de “íntima e tenebrosa complacência com o fatal”. Desprezam-se os supremos reptos do destino em favor de gestos de renúncia por meio dos quais se deixa de “empunhar a espada da responsabilidade”[iii]. No seu lugar adopta-se uma cultura de despudorada indiferença e servilismo na relação com os donos do poder. Uma postura de sujeição à sombra da qual se tapam os olhos diante da incompetência e da imoralidade dos governantes com as suas repetidas indecências e falsidades.

Em vez de utilizar a arma da escrita e das artes como um poderoso instrumento de acção transformadora, a maioria da intelligentsia angolana caminha em sentido oposto aos grandes valores da civilização pregados desde a Grécia Clássica. Quando não se omite diante dos padrões de dominação e violência do MPLA, alinha abertamente e sem pruridos com este partido e presta-lhe uma “vassalagem cortesã”. Então, é vê-la pródiga em ilusionismos discursivos a irrigar as suas matérias jornalísticas e literárias com palavras eufemísticas, mas simbolicamente reveladoras da sua capitulação frente ao reaccionarismo dos novos-ricos do Poder.

Mesmo que o queira negar, esta categoria pensante é co-responsável pelo falhanço do processo histórico comandado pelo Partido dominante. Ela ajudou a plantar as sementes do descalabro nacional que se avizinha a passos rápidos. O que de funesto tem ocorrido em Angola, não é só culpa da má governação. Ocorre porque os jornalistas e outros “plumíferos” abdicaram da sua vontade e perfilaram-se contra a libertação do seu povo e contra todas as conquistas universais do conhecimento. Desistiram de participar depois da independência nacional do grande movimento de mudança da história, de construir o país em liberdade. Acomodaram-se no papel de escribas sentados, para usar uma metáfora de Manuel Vásquez Montalbán, romancista e ensaísta espanhol (1939-2003). Uma condição que lhes confere, inegavelmente, a vantagem de manejar um código com o qual ajudam a “perpetuar o sistema”[iv]. A sua função de “servos ilustrados” ao serviço do ditador impõe-lhes a obrigação de reproduzirem a cartilha do MPLA e de glorificarem esta organização política, exactamente com a mesma linguagem do Partido. Todavia, a semântica que exercitam não lhes pertence. Tem dono, o MPLA.

Ou seja, o Partido aproveita o concurso desses ventríloquos para promover a figura do Líder, cinzelá-lo com as tintas de salvador e entronizá-lo no seu poder absoluto. O MPLA (por meio dos seus dispositivos de Estado) usa o medo e a pusilanimidade desses sacerdotes da escrita para reprimir a criatividade política e cultural e cooptá-la. Manipula e destrói o espaço de informação nos jornais e noutros órgãos de comunicação social, impõe medidas de censura, dissolve valores contrários ao Partido e estabelece narrativas de domínio total sobre a colectividade nacional. A “informação” em Angola só tem valor se corresponder aos pronunciamentos do ditador e aos comunicados do Partido.

Uma dúvida que persiste é se estes escribas se beneficiam directamente do regime pelas suas qualidades pessoais, ou se as mercês que recebem lhes advém de terem parentes e padrinhos muito bem colocados no Partido e no Estado. Seja como for, são raros os escribas que, em retribuição pelos seus serviços, se sentam à mesa no palácio a provar os manjares do Soberano. No reinado de Agostinho Neto houve um que gozava desta prerrogativa: Costa Andrade, vulgo “Ndunduma”, director do Jornal de Angola, que passava então por ser o escriba-mor do regime. Gozou de títulos de distinção. Ia pessoalmente ao palácio conviver fraternalmente com o amo e receber dele instruções sobre o que deveria escrever. As notas, os editoriais e outras barbaridades que despejou naquele pasquim no período que antecedeu o 27 de Maio, e depois no vendaval das chacinas de Estado que se seguiram, foram-lhe ditadas por Neto. Foi assim também com José Eduardo dos Santos no seu relacionamento com outros escribas e parece que continua a sê-lo com o actual autocrata.

Digamos que em momento algum se viu um director, editor e repórter dos jornais, rádios e televisões, dedicar algum espaço ou atenção às pessoas e às comunidades sociais e políticas não identificadas com as doutrinas e a práxis do MPLA e do seu governo. Ignoram-nas em absoluto. São segmentos da sociedade que não existem para a mídia em geral. Do mesmo modo se ignoram as vozes que ousam divergir do regime político, excepto quando as elegem como alvo das suas linhas de fogo. Contra essas vozes desatam-se campanhas execráveis de calúnias e outros procedimentos desprezíveis de modo a assassinar o carácter da pessoa visada.

Honra seja feita a Carlos Ferreira e a Nok Nogueira enquanto presidiram aos destinos do Novo Jornal. Um e outro tiveram o mérito de resistir ao clima de intolerância prevalecente no país. Neste mesmo combate de resistência contra o obscurantisno enfileiram os semanários Folha 8, Expansão e O Kwanza. No mais, porém, nada se alterou. As vozes dissidentes e as lutas contraculturais continuam relegadas à condição de fantasmas. São fenómenos tratados como não-existentes ou como símbolos de forças obscuras que, segundo o regime, estão apostadas em socavar o grande projecto de “redenção” nacional liderado pelo MPLA. Somente as vozes fiéis a este Partido e à sua cultura gozam de importância e do direito a um microfone ou a uma página de jornal para se fazerem ouvir.

Nunca se viu, em resumo, do lado da imprensa, dos escritores e artistas uma reflexão e um exercício de sistematização sobre a arquitectura de morte e terrorismo de Estado e outras sequências demoníacas praticadas pelo regime do MPLA. Por toda a parte, em desfiladeiros, barrancos, florestas e areais, jazem ossos perdidos de milhares de vítimas abatidas pelos homicidas do MPLA. Nenhum desses plumitivos, porém, se preocupou alguma vez em discutir até quando durará o silêncio criminoso do governo e do Partido em cumprir a exigência moral de se dar um túmulo a esses cadáveres a fim de se lhes devolver a dignidade, a cidadania. Apequenados nas suas misérias humanas, permanecem enroscados num labirinto de cumplicidades e num patológico absentismo e obediência ao Golias chamado MPLA, aceitando que este Partido continue a fazer do país um seu enclave autoritário.

Arrepia-me comprovar esta realidade. De haver uma parcela significativa da intelligentsia angolana que mira de forma leviana o fundo da tragédia nacional e não se sobressalta. Pelo contrário, conforma-se. A indiferença tomou conta da vida desses “clérigos da traição”, conforme os crismava Julian Benda, pensador francês[v]. A filosofia da liberdade com os seus valores mais sublimes nada diz a esse grupo. Há muito que se auto-amordaçaram de modo a evitar incómodos. Preferem levantar “sacos de areia” em torno de si e serem omissos. Isto é, serem dirigidos como autómatos por quem os governa. Calam-se diante de todas as infâmias, diante das irracionalidades e opressões do regime. Relegam tudo para os alçapões do esquecimento. Até no que se refere ao vergonhoso clientelismo partidocrata ostensivamente instalado no interior do aparelho de Estado, nenhuma impugnação se faz ouvir. Sequer os abala saber que estão a legitimar crimes atrozes e a cooperar na obra sinistra de propagação da ignorância entre as massas, fazendo-as acreditar que o MPLA e a sua direcção se compõem de uma galeria de pessoas impolutas e honoráveis que vieram para governar Angola ad aeternum.

O meu assombro perante tudo isto é imenso. Tanto mais porque me “causa calafrios pensar [como diria Jan Zábrana, poeta checo] ser este o atoleiro para aonde o glorioso partido conduziu o seu rebanho”[vi]. Custa-me realmente a entender. Cada um que responda com o sol da lucidez que lhe banha o espírito. Na minha perspectiva o futuro de Angola antevê-se sombrio.

[i] Max Aub. La Gallina Ciega. Diario Español [prólogo de Manuel Aznar Soler, Universitat Autònoma de Barcelona], Editor Digital Titivillus, 1971, p. 325.
[ii] Antonio Gramsci. Odeio os Indiferentes. Escritos de 1917 [selecção, tradução e aparato crítico de Dniela Mussi e Álvaro Blanchi], São Paulo, Boitempo, 1.ª edição, 2020, p. 11.
[iii] Rafael Sánchez Ferlosio. Vendrán Más Años Malos y Nos Harán Más Ciegos, Editor Digital Titivillus, 1993, p. 14.
[iv] Manuel Vásquez Montalbán. El Escriba Sentado, Barcelona, Crítica (Grijalbo Mondadori), 1997, p. 14.
[v] Julian Benda. La Traicion de los Intelectuales (La Trahison des Clercs) [traducción de L. A. Sanchez], Santiago de Chile, Ediciones Ercilla, 1951.
[vi] Jan Zábrana. Toda Una Vida, Tenerife, Editorial Melusina, 2010, p. 22.

(*) Artigo publicado no jornal português Público em 19.12.2020

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